A tinta da melancolia

Machado de Assis escreveu “Memórias Póstumas de Bras Cubas" com a pena da galhofa e a tinta da melancolia. Nos tempos que correm, não há galhofas, mas sobra melancolia. Chuvas escancaram nossa indiferença pela vida humana e pelo meio ambiente. Deslizes de engenharia tornam desastres, como os de Brumadinho, vergonhosos e repetitivos. Enchentes em São Paulo testemunham a incúria histórica com saneamento na cidade mais desenvolvida do país e nos fazem temer por desastres iguais ou piores em cidades menos ricas ou infinitamente mais pobres deste imenso país. A brutalidade indizível dos assassinatos na escola estadual de Suzano faz tremer diante de sua barbaridade, mas não nos horroriza tanto quanto reações de autoridades a defender o armamento de professores, como fórmula de combater uma manifestação doentia, cujas raízes germinam num tecido social perverso e injusto.

É impensável que, no mesmo dia em que ocorria a matança de adolescentes e professoras, se deliberava nos mais elevados níveis de nossa república, submeter ao Congresso lei que torna o porte de armas uma medida justificável ou defensável. O que esperamos? O que desejamos a uma sociedade infelizmente cindida pelo ódio, que não nasceu dela, mas que lhe foi gradual e persistentemente inoculado por mentiras, hipocrisias ,corrupção e desespero diante de um futuro prometido e nunca alcançado?

Será que os mágicos do absurdo ,que ,de uns tempos para cá, nos encantam com a dança de cobras envenenadas, não percebem, como já perceberam os que por elas foram picados- pelo desemprego, pela perda crescente de direitos sociais, pelo aumento da mortalidade infantil, pelo recrudescimento de doenças que julgávamos erradicadas - que a musiquinha de suas flautas, pouco a pouco, nos leva à anarquia dos despossuídos? O que mais esperam os menestréis de teorias revestidas de embustes matemáticos, quando não de malícia inconfessável? O que espera a oposição democrática para contrapor, como já deveria ter contraposto faz muito, o contraditório a verdades sagradas e fundamentalistas, inimigas do crescimento econômico, do desenvolvimento social e humano, da sadia política externa de um país, que, aos céus, só tem a agradecer pelas benesses que lhe foram derramadas em profusão pela natureza? Pode-se crer que não há alternativas para o desenvolvimento de nosso povo e de nossa terra, senão uma política rasteira que joga assalariados contra assalariados num desenlace de perdas múltiplas, cujo fermento é o hipotético equilíbrio de contas públicas? Não está óbvio que, três anos depois da reforma constitucional, dita do “teto de gastos” e sua irmã siamesa dos direitos trabalhistas, a situação social e econômica só piorou? Vejamos: em 2014, a arrecadação da Previdência dos trabalhadores urbanos superava a despesa em 32,4 bilhões de reais. Hoje, o deficit chega a 82,5 bilhões . Os dados são do IBGE, que, a propósito, o ministro da Economia acha que faz perguntas demais e quer vender seus imóveis. A transparência em nada ajuda a quem vive com cartas marcadas.

A realidade é evidente: só o aumento da renda, melhora a arrecadação e só o aumento do emprego incrementa a renda.

Mas não é assim que pensam os postos ipirangas. A reforma da Previdência submete ao Congresso não uma, mas três emendas constitucionais que farão dela, previdência, uma guerrilha legislativa anual. Nada nos garante que os acordos de hoje serão honrados no ano seguinte. A insegurança jurídica será a mãe da imprevidência social. Pergunto: por que nossos políticos não expõem esses e outros jabutis abrigados nas manobras dos frentistas do posto Ipiranga? Por que não se tributa o lucro de altas rendas? Por que não se reduz o juro escorchante sobre o crédito bancário? Deputados e senadores, pelo menos alguns dentre eles, poderão imaginar que seus eleitores presentes e futuros se satisfarão com as bicas de agua nas ladeiras das favelas. Ledo engano. Mas cada um, como dizia minha avó, sabe onde o chinelo aperta o calo. É hora do contraditório, corajoso, lícito e democrático. O Brasil tem um encontro marcado com seu destino. Abrem-se diante de nós claras e desafiadoras opções. Só a coragem do debate franco e aberto nos permitirá reconhecer em cada brasileiro um irmão. Só a obediência ao preceito constitucional nos permitirá reencontrar a força e a confiança que farão desta nação a senhora de seu destino.

* Embaixador aposentado