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Está sobrando aço no mundo: e agora?

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O ano de 2019 começou com desafios ainda maiores para os exportadores brasileiros de aço. A exemplo do que fez o presidente Donald Trump, a União Europeia aprovou a imposição de barreiras à importação deste produto. A proposta precisa ser aprovada pela Comissão Europeia, mas parte dos países europeus já concordou para que entre em vigor a partir de fevereiro.

Entretanto, para entendermos esse novo capítulo da guerra comercial, precisamos retornar à decisão tomada por Trump, em março do ano passado. Na ocasião, o presidente dos EUA anunciou a criação de novas taxas para a importação de aço e alumínio ao país. Apenas o aço importado do Canadá e do México não seriam sobretaxados. Trump justificou a medida como forma de segurança nacional. Ainda, é importante lembrar que a sobretaxa, considerada por outros países como protecionista, foi uma de suas promessas de campanha eleitoral.

Com a diminuição do volume importado pelos EUA, os países exportadores de aço tiveram que procurar outros mercados para escoar a produção e, dentre esses, encontra-se o europeu. O aumento das exportações para a União Europeia fez com que os países desse bloco aprovassem a imposição de barreiras contra a importação do aço, sob a justificativa de "blindar os produtores de aço da Europa" e de "preservar os fluxos de comércio tradicionais". Assim, todas as importações deste produto ficarão sujeitas a uma cota até julho de 2021 e o volume que ultrapassar o teto fixado será taxado em 25%. No caso brasileiro, os importadores europeus que desejarem importar laminados e/ou folhas metálicas do Brasil, terão uma cota inicial de 168 mil toneladas e de 50 mil toneladas, respectivamente; o volume excedente será sobretaxado em 25%.

Mas quais os impactos que essa medida imposta pela União Europeia poderá causar no Brasil? Em 2018, cerca de 18% das exportações de aço do Brasil foram destinadas à Europa, o que representa a exportação de 2,1 milhões de toneladas, cerca de USD 1,4 bilhão. Com as cotas e a sobretaxa, o impacto imediato seria a redução do volume comercializado com os países europeus. Diante disso, o Brasil deverá buscar outros mercados para a comercialização de sua produção para que a indústria nacional, que teve sua capacidade instalada reduzida para 70%, não sofra mais retração. Caso contrário, a consequência, em médio prazo, seria o aumento da vulnerabilidade, a perda da competitividade da indústria e o agravamento da crise econômica interna.

Entretanto, a onda protecionista, muito em decorrência dos desdobramentos das medidas adotadas pelo presidente dos Estados Unidos, contribui para a restrição dos mercados disponíveis para a livre comercialização. Dessa forma, os países exportadores de aço concentrarão seus esforços para vender seu excedente produtivo para mercados que não possuem restrições, aumentando a concorrência. Há quem defenda que a América Latina seja o principal destino para a absorção do excedente da produção mundial do aço. Independentemente do destino, está sobrando aço no mundo. E quanto maior a quantidade de produto ofertado, mais o mercado força os preços para baixo, desvalorizando, assim, o produto.

Enquanto a medida não entra em vigor, o Brasil pretende recorrer a mecanismos multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC), e negocia com a União Europeia uma possível flexibilização aos produtos brasileiros. Apesar dos esforços, o futuro ainda é incerto.

* Doutora em Administração e professora de Administração, Comércio Exterior e Engenharia da Produção da Universidade Positivo