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A ética em Marte

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O mundo anda chato. Nunca estivemos tão incorporados de novas tecnologias e tão em conflito sobre os rumos da humanidade. Um aparente paradoxo? Não. A questão é que estamos mais rápidos em novas descobertas em todos os campos da ciência. O conhecimento amplamente compartilhado, amplifica toda uma base de informações e que, por sua vez, empodera mais e mais todo o sistema. Um sistema de poder ilimitado em um mundo globalizado, altamente competitivo, em uma verdadeira guerra por mercados.

Não haveria uma questão séria neste célere desenvolvimento, se uma contrapartida moral estivesse justaposta. Não é o que está ocorrendo. A briga é pela liderança no mercado, pelo bônus financeiro, pelo lugar no estádio, pela vaga no estacionamento, pelo melhor artigo científico, pela melhor selfie. A todo custo.

Estamos caminhando para aonde? Tenho ouvido com muito mais frequência que o mundo anda mesmo muito chato. Individualismo, "fake News", mais violência. Mais assimétrico e menos solidário. A despeito de todo avanço, permanecemos em queda livre, num simulacro de imagens, ou engolidos por rejeitos de uma represa, mortos por tiros que mal sabemos a origem. A sirene deveria estar acionada. E no maior volume. Quando ainda é tão intensa a homofobia, a misoginia, o racismo, a falta de empatia, algo acende um sinal. Este mesmo alerta na década de 70 formalizou o início da bioética, área multidisciplinar sob a demanda de escândalos em pesquisas em saúde estadunidenses.

Sob as intensas pulsações do progresso não compreendemos adequadamente o valor de todas as coisas. Pouco antes de morrer, o neurocientista Stephen Hawking sinalizou que o planeta estaria chegando a seu limite e que deveríamos ampliar a possibilidade de expansão alhures no universo. Antes de acabarmos com a paz e o silêncio de Marte ou outro ponto da galáxia, deveríamos nos repensar. Seríamos melhores humanos em Marte? Estamos perdendo o controle quando tudo poderia estar indicando o oposto. Afinal, dominamos a técnica. Caminhando para 8 bilhões de habitantes, a Terra é capaz de comportar a todos. Ela nos acolhe, mas precisamos exercitar o respeito mútuo, a compaixão, a solidariedade.

Não estamos satanizando o progresso nem o humano narcisismo; mas não precisamos construir e idolatrar nosso abismo. O homem não pode perder a percepção de pertencimento ao mundo. Há muita sede, fome, dor, solidão. Podemos ser éticos no planeta em que nos coube viver. A bioética ampliou o campo de atuação e, em especial, em países como o Brasil, tem uma preocupação e atuação também na área de justiça social e múltiplas formas de vulnerabilidade, proteção ambiental e nos avanços da ciência para além do campo exclusivamente da medicina.

Por ora, é premente uma pausa na humanidade, no mundo. Precisamos respirar e seguir em frente. Não há como legitimar nossa existência sem a consciência do todo. A bioética vem reforçar a prudência, a ética das virtudes aristotélica, imprescindíveis em qualquer diálogo nesses tempos sombrios. O desenvolvimento e o crescimento das sociedades precisam estar melhor refletidos, e não serem o presságio de distopias, ampliando nossa percepção dos valores que sustentam o melhor da humanidade e sua conversão em atitudes.

De outra forma, deveremos repensar duramente o homo sapiens. E pensar quem realmente somos e o que estamos fazendo. Ainda temos um longo caminho. A história sempre demonstrou a imperfeição humana. Mas também suas potencialidades.

* Presidente da Sociedade de Bioética do Estado do Rio de Janeiro