Tragédias anunciadas

A maior tragédia natural da história do Brasil aconteceu no Estado do Rio de Janeiro, no dia 12 de janeiro de 2011, quando um temporal atingiu a Região Serrana e deixou o saldo tenebroso de mais de 900 pessoas mortas, milhares de desabrigados e cidades destroçadas. Infelizmente, o fato não foi novidade. Oito anos depois, o período do verão continua marcado por tempestades que costumam deixar um rastro de destruição e desassossego, como ocorreu recentemente no município do Rio de Janeiro.

É evidente que a força das águas gera desastres terríveis. É importante ressaltar, porém, que raríssimos problemas que acontecem no Brasil podem ser definidos apenas como desastres naturais. Muitas vezes, os equívocos humanos na gestão do uso do solo acarretam, ou potencializam, as catástrofes.

Temos um longo histórico de desmatamento de encostas e destruição da mata ciliar dos rios. Obras estruturais de ampliação da capacidade de dar vazão às águas de enchentes têm ocorrido em alguns casos, mas o crescimento desordenado das cidades continua desafiando o poder público a pensar em soluções mais efetivas. O solo construído sem critérios técnicos não absorve a água e os rios continuam sendo depósitos do lixo produzido por boa parte da população.

A ocupação de áreas de risco, geralmente em encostas e sem qualquer adequação a terrenos em declive, transforma qualquer chuva mais forte em potencialmente destruidora de moradias e vidas. Ao mesmo tempo, não bastam apenas soluções de força, com a remoção de moradores das áreas de risco. É necessário que o poder público pense com seriedade e urgência em alternativas dignas para, sobretudo, os mais pobres que acabam ocupando, na maioria das vezes por falta de opção, áreas condenadas.

Ao mesmo tempo, em cidades como o Rio de Janeiro, sujeitas a tempestades de verão, a falta de manutenção do sistema de drenagem, com uma quantidade exorbitante de bueiros entupidos, só agrava a situação. Há regiões da cidade em que a rede de drenagem tem mais de um século. Os reservatórios construídos na gestão do prefeito Eduardo Paes, que contribuíram para combater alagamentos em regiões da cidade do Rio, precisam de mecanismos eficientes e constantes de recolhimento do lixo que bloqueia a entrada da água no sistema.

É preciso, sobretudo, que o poder público entenda que a prevenção contra enchentes é um trabalho que deve ocorrer o ano inteiro; indo de um eficiente sistema de manutenção à introdução de inciativas que estimulem a consciência ambiental da população. Não adianta, ainda que seja importante, propor apenas linhas emergenciais de atuação da Defesa Civil para remediar catástrofes. Não podemos apenas enxugar o gelo, insistir no argumento de que choveu mais que o esperado, ou ficar à mercê de orações para que as chuvas não castiguem tanto o Rio de Janeiro.

Chuvas fortes continuarão a cair. Tempestades de verão continuarão a inundar as cidades. As ações da gestão pública e o engajamento da população para lidar com os riscos é que darão a medida da nossa capacidade de viver em sociedade com solidariedade, respeito ao meio ambiente, e responsabilidade social em busca do bem comum.

* Deputado federal (PDT-RJ)