Sem colaboração, não há solução

Quando vejo a solidariedade e a união de esforços que caracterizam um momento de tragédia nacional, como a de Brumadinho, apesar do contexto de polarização social que marca o país, confesso que renasce em mim um tantinho de esperança.

Possivelmente por conta de meu inabalável otimismo, chego a pensar que este espírito de coesão social poderia também surgir quando a sociedade brasileira realmente se desse conta da gravidade de seus problemas, nos campos da educação, da saúde ou da violência.

Assim, quando tomássemos consciência do tamanho dos problemas e de como eles afetam a todos nós, independentemente do "polo" em que cada um se encontra, e caso se mantivesse a fé na possibilidade de enfrentá-los, talvez fosse possível pensar em colaboração.

Neste momento, o grande desafio seria o "como". Como promover estratégias colaborativas entre grupos que semeiam o preconceito, a discriminação e o ódio entre si? Como vencer uma dinâmica social segundo a qual os membros de um grupo só admitem informações e dados que confirmem suas próprias crenças, sem conseguir sequer ouvir o outro? Como vencer a guerra das mídias sociais que aprofundam, inclusive através das fake news, o abismo entre os polos? Como estabelecer as pontes necessárias? Como e por onde começar?

A primeira possibilidade de se implantar uma estratégia colaborativa seria o aprofundamento, ainda maior, de nossos problemas sociais. Infelizmente, pode ser que somente quando as consequências da baixa qualidade da educação que estamos oferecendo às novas gerações, da falência dos serviços de saúde a que têm acesso os mais pobres, ou do massacre a que estão sujeitos, especialmente nossos jovens, retratado nos 62 mil homicídios ocorridos em 2018, se tornarem uma tragédia comparável à de Brumadinho, possamos superar a polarização que nos imobiliza.

Por outro lado, o próprio diagnóstico da polarização pode estar equivocado. Na verdade, 42 milhões de eleitores afirmaram, através do "não voto", sua discordância com os ideais dos dois polos. Se acrescentarmos a este grupo aproximadamente terça parte dos que votaram em um dos lados, não por concordância, mas por discordância com o outro grupo, chegaríamos a cerca de 75 milhões de eleitores "nem nem", que estariam apartados do processo de polarização. Neste enorme contingente de brasileiros pode estar o lócus da colaboração.

Seja pelo agravamento dos problemas, seja por iniciativa dos "eleitores nem-nem", um processo colaborativo ainda exigiria um longo caminho de construção de confiança entre os setores sociais, de desenvolvimento de habilidades de comunicação não violenta, de mudanças nas estruturas que reproduzem os problemas, de transformações dos modelos mentais que justificam a desigualdade e a injustiça social, sem contar com a existência de "líderes-ponte" capazes de promover o diálogo entre grupos e setores.

Além disto, haveria necessidade de se estabelecerem algumas condições iniciais básicas. Os governos deveriam estar dispostos a trabalhar com a integração vertical (diferentes níveis) e de forma intersetorial, além de realmente valorizarem as parcerias multisetoriais. O setor empresarial precisaria, no campo social, superar a lógica da competição, em favor da cooperação. O terceiro setor teria de dispor de condições técnicas e financeiras para atuar em parceria. Finalmente, mas não menos importante, haveria de ser definida uma agenda comum, com metas objetivas a serem alcançadas coletivamente, e que pudesse servir de norte e elemento catalizador da parceira.

Tais condições já são encontradas em alguns territórios que poderiam iniciar ou aprofundar iniciativas deste tipo, servindo como efeito demonstração de que a colaboração é possível, e de que seus efeitos sinérgicos podem aumentar os impactos coletivos, no enfrentamento de nossos problemas sociais.

Um caso exemplar é o do município de Pelotas, que resolveu chamar para si a liderança de uma parceria, voltada para o enfrentamento da violência. O Pacto de Pelotas pela Paz se propõe a reunir diferentes níveis de governo, setores (segurança, justiça, educação, saúde, desenvolvimento social) e atores sociais (empresas, organizações não governamentais, universidades), em torno do desafio de diminuir os índices de violência na cidade.

Sem dúvida, exemplos como este podem incentivar o uso de estratégias colaborativas, mas o primeiro passo é compreender que, sem colaboração, não há solução para os problemas sociais complexos.

* Diretora da Synergos

 

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