A 'modernidade líquida' e a lama do capitalismo

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) criou o conceito de “modernidade líquida” para definir o conjunto das relações sociais no mundo contemporâneo. “Vivemos em tempos líquidos. Nada foi feito para durar”, afirma o autor. Esse tempo de incertezas coincide com a fluidez do capitalismo informacional, demarcado pela globalização, pelo avanço da internet e das tecnologias digitais.

A “modernidade líquida” de Bauman contrapõe-se a outro conceito do autor, a “modernidade sólida”, onde com frequência se revela a inércia das relações entre os sujeitos e as instituições sociais.

Contudo, independentemente da modernidade na qual estamos inseridos, o capitalismo é o motor da nossa vida em sociedade. E no Brasil ele obedece a lógicas extremamente contraditórias. Muitos gostariam de apresentá-lo sob uma ótica de país avançado, mas os rejeitos do atraso estabelecem uma permanente ameaça.

A tragédia causada pelo rompimento da barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, é exemplo dessa contradição, onde a exploração própria do sistema produtivo junta-se ao descaso pela vida humana e o meio ambiente. É quando a lama do capitalismo destrói as forças produtivas e regride a um tempo anterior à modernidade. Mais do que anunciada, ela foi desta vez uma tragédia repetida, pois tem o precedente de Mariana, que provocou a morte de 19 pessoas e prejuízos imensuráveis ao ecossistema da região. Agora, a perda de vidas humanas ultrapassa duas centenas.

A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, determinou a formação de uma força-tarefa para apurar as responsabilidades: “Certamente há um culpado, ou mais de um, e o Ministério Público precisa trabalhar de forma adequada, sem espetacularização, mas firmemente na busca dos responsáveis por essa tragédia”, declarou.

Aqui entram em jogo as contradições de praxe. Duas tragédias causadas pela mesma empresa, no espaço de três anos, uma querendo ser maior do que a outra, em perdas de vidas humanas ou danos ambientais. Pelo que se depreende das leituras atuais, a Vale ainda recorre dos processos referentes à Mariana.

Não houve fiscalização efetiva dos órgãos do governo no sentido de coibir este novo crime que dizimou famílias e causou prejuízos econômicos e sociais. A Vale é culpada, sem dúvida, mas o poder público também é responsável por essa tragédia. Do conluio entre ambos é que surgem as fiscalizações sem efeito, de faz de conta, e as multas que jamais são pagas.

Sim, o capitalismo é um sistema econômico e social que objetiva o lucro e a acumulação de riquezas. É assim em todo o mundo – ou quase todo – atualmente. Mas existem regras, enquanto aqui predominam as mazelas desse sistema. Para alguns autores, como consequência de uma sociedade em cuja origem predominou o sistema escravagista.

Contudo, enquanto buscamos nos recalques da nossa formação a justificativa para essas tragédias, as mineradoras explodem os seus tanques de rejeitos sobre nossas vidas. Estamos no tempo da “modernidade líquida”, em que as relações sociais são fluidas e efêmeras, o individualismo exacerbado, mas todos vão sofrer e chorar os seus mortos.

* Jornalista, autor do romance “O filósofo do deserto” ([email protected])