Mas Brutus era um homem honrado

Vivemos um momento no qual, infelizmente com muita frequência, mentiras repetidas incontáveis vezes, nos múltiplos canais que hoje dispomos, se “transformam” em verdades e passam a ser defendidas de forma virulenta. Ao que parece, as consequências mais nefastas das distorções entoadas como mantras são a cegueira generalizada que se instala e a incapacidade de ouvir verdadeiramente. Escutar de maneira fidedigna cria possibilidade genuína para, diante de argumentos razoáveis, revisitar certezas, reelaborar convicções e mudar de ideia. Especialmente no contexto brasileiro, a compreensão do discurso vem sendo definida mais por quem fala do que pelo o que está sendo falado.

Em comportamento deturpado, a depender da origem da assertiva, será tomada como inconteste ou refutada com veemência, independentemente das alegações apresentadas. É como se os interlocutores, a priori, determinassem a interpretação dos fatos, mais que os fatos em si. E na escuridão de tantos, as evidências se tornam invisíveis e o bom senso se eclipsa. As conversas se esvaziam de sentido e no lugar de abrirem espaço para o diálogo, sulcam trincheiras cada vez mais profundas. Equivocadamente, possuir opinião diferente de alguém passou a ganhar a conotação de estar contra esta pessoa, polarizando lados opostos e configurando um abismo cada vez mais intransponível.

Quando o assunto é política, os ânimos têm se acirrado nervosamente, colocando em risco condições imprescindíveis à saúde da democracia, ou seja, o bom convívio de visões múltiplas e o reconhecimento que a discussão se dá em diferentes âmbitos e linguagens. Nessa direção, alguns dos mais emblemáticos autores de teatro se dedicaram a escrever sobre o governo dos povos e seus personagens históricos, contribuindo para o exercício da reflexão. Júlio Cesar foi tema de uma das tragédias de Shakespeare, concebida e publicada entre os séculos 16 e 17. Brecht também se encantou pela história do romano ilustre e escreveu a peça “Os negócios do Sr. Júlio César”, na década de 30.

Na Inglaterra Elisabetana, Roma era considerada modelo de organização política. Diferentemente dos dias atuais, esta era uma das poucas referências de sistematização governamental. Até mesmo o exemplo grego, matriz do ítalo, não parecia tão próximo aos ingleses devido ao idioma e linguagem. Fato é que o período da Renascença alçou a cultura italiana a novo patamar e passou a integrar a obra do bardo inglês, que se inspirou em escritores como Plutarco. Na peça “Júlio César”, o dramaturgo explora a conspiração que culmina com o assassinato de César, as consequências do ato extremo e o modo como a morte do imperador é apresentada ao povo.

O ponto alto do texto, e que viria a se tornar um dos mais importantes do teatro de Shakespeare, é o discurso proferido por Marco Antônio nas escadarias do Senado romano, em frente ao cadáver de César, morto segundo plano de Cassio e Brutus. Perante a massa popular, que outrora admirava o imperador, mas que após todas as ações conspiratórias de Brutus, passou a condenar Júlio, Marco organiza sua fala de modo a condenar César ao começo. Prossegue relembrando, pouco a pouco, os atributos do imperador para, em seguida, dizer: “Mas Brutus é um homem honrado”. Faz isso seguidas vezes. E, assim, utilizando-se deste artifício, altera o estado de espírito do povo que se volta contra os assassinos de César.

A despeito da habilidade do orador, a massa ali presente estava disposta a ouvir e passou a enxergar na justificativa de Brutus, ou seja, o fato de ele ser supostamente honrado, uma enorme incoerência. Ao escutarem Marco Antônio, perceberam que a retórica de Brutus para defender o homicídio de César não correspondia aos fatos. O “mantra” da vez, “Mas Brutus é um homem honrado”, não se sustentou diante da incongruência do conspirador. Não se trata de correlacionar diretamente os fatos históricos, ocorridos em Roma, aos da ficção construídos por Shakespeare, mas de, a partir da peça, recuperar elementos que dialoguem com a atualidade e nos estimulem a repensar nossa capacidade de escuta.

Assim também fez Brecht. Em seu teatro, que ele próprio nomeou científico e dialético, costumava se referir a fatos verídicos, e longínquos temporalmente, para questionar as mazelas do tempo em que viveu. Em uma de suas técnicas teatrais, o “efeito de distanciamento”, postulava que o senso crítico da plateia seria aguçado se as histórias fossem contadas de modo a causar algum estranhamento. Desse modo, explorou questões de sua época por meio de peças inspiradas em parábolas chinesas, tragédias gregas e dramas históricos. Afastada temporalmente dos problemas apresentados nas peças, a plateia poderia analisar as próprias questões de modo mais razoável.

Se no campo das ciências a sociologia desenvolveu metodologias específicas e nos oferece conceitos e teorias que permitem identificar e compreender os fenômenos sociais com propriedade, as artes disponibilizam recursos que perpassam a fantasia e os afetos para desvelar o que, por vezes, se camufla em meio à profusão de informações que se empilham a cada dia. As artes, tal qual a sociologia, nos ajudam a ver que os oportunistas prosperam em épocas de crise e que aqueles vulneráveis e humilhados socialmente se tornam presas fáceis da demagogia. Confinados a uma lógica perversa, seguem cegos e surdos, voltando-se contra si próprios sem sequer perceberem...

* Mestre em Teatro e doutora em Ciências