Hipertextando

Com a era digital, novas palavras fomos incorporando. INTERNET, por exemplo. Outras, por viralatice, adotamos: fakenews é apenas infâmia, calúnia ou difamação. Delivery...francamente.

Já, hipertexto é de fato uma novidade que altera a prática da leitura: ao encontrar a palavrinha azul, clica-se nela, e seremos transportados a um mundo de aventuras. Assuntos se sucedem e efetivamente a apreensão do conteúdo original resulta completamente alterada.

Qual em “Alice”, o atalho leva-nos a maravilhas ou a um vórtice de digressões. Ou às duas coisas.

E assim, lá estava eu no Museu Edison Carneiro, simpática instituição, quase engolida pela suntuosidade do Palácio do Catete, dedicada à Arte Popular, quando me detenho em uma notícia do JB, imagem ampliada, e que serve como abre-alas da exposição.

Assinada por Reginaldo Guimarães, em 1957, em poucos parágrafos e alguns sobressaltos, prendia-me ali. Para começar, seu título nos leva aos usos e costumes populares do Rio de Janeiro, no Século XIX, que para o autor parecia distante, tanto que exibia como fonte o livro de Manuel Antônio de Almeida, “Memórias de um Sargento de Milícias” que, malgrado título tão atual, ninguém mais lê. Prometi-me que retornarei a ele.

Prosseguimos com Reginaldo, para novamente estancar, pois eis que surge um acurado crítico das milicianas memórias, ninguém menos, que Astrogildo Pereira. O hipertexto, que soe ser azul, acenderia em reluzente vermelho.

O que um dos fundadores do Partido Comunista do Brasil arava em terreno tão distante das “ideologias exóticas à índole cristã do povo brasileiro”?

Mas, por não muito conhecer de Astrogildo, além de sua face revolucionária, google nele, e, graças a www.vermelho.org, saberemos que, anos antes da matéria de Reginaldo, dedicava-se a ninguém menos que Machado de Assis. E isso, vendendo frutas no interior de São Paulo. Há vidas que são, elas próprias, uma sucessão de hipertextos. A de Astrogildo, por vezes grafado com “j”, terá sido uma delas.

Voltemos ao texto, em seu encalço, e acharemos o perigoso maximalista comparando o retro citado Almeida com Debret. Outro azul piscante, mas nesse caso, tênue, pois, ao menos, graças ao samba da Unidos de Lucas, sabemos que vindo ao “nosso Brasil retratar, pintou a tribo de índios guerreiros, desenhou no cativeiro, negros no tronco a penar”, e não nos deteremos no pintor do Rio joanino, tendo de dar um jeito de retornar ao que julgo ser o que querem de mim nesse canto de página nove.

Será de bom alvitre voltar à porta que nos oferecia cultura popular, em um tempo em que, ao se dizer que cultura gera renda, criou-se o hipermercado da indústria criativa e o rabo passou a balançar o cão, consequência virou causa, e o poste a lhe urinar em cima.

Fato é que a primeira ideia do ministro que migrou para a secretaria paulista, com um quê de quem caiu pra cima, foi adicionar o moderno conceito ao nome da pasta, enquanto na minguada versão fluminense, o programa dos 100 dias parece plano de metas de posto de gasolina.

Enquanto nas ruas, a cultura popular se recria. Como as Folias de Reis. Por certo, não como as que animavam os dias de janeiro do Século XIX, mas como blocos de carnaval as resgataram no último dia seis, contando com a má vontade das industriosas autoridades.

Sem muita imaginação, perceberiam o embrião de uma nova festa, pós réveillon, com o potencial de reter alguns dos muitos que para aqui vieram. Melhor do que prometer que o Rio, como se falassem a Macaé, vai virar Houston... Nem Nova York, nem Los Angeles, nem Chicago: mas apenas a meca texana do petróleo.

Talvez se chegue mesmo, como Houston, à condição de quarta cidade do país, em população. A retração urbana existe.

Mas que não se lhes encurtem as ideias, pois por mais que se economize cultura, ela brotará. Mesmo no asfalto.

* Arquiteto Urbanista, DSc