A roupa do rei e o carro da rainha

No Brasil, recebeu o estranho nome de “Casanova e a Revolução” o filme de Ettore Scola, “La Nuit de Varénne”, em que Hanna Schygulla, no papel da Condessa de la Borde, curva-se diante do traje real, a ela confiado, como se nele contido estivesse o próprio Luiz XVI.

Naquela noite de 1791, em que todos já estavam prestes a perder a cabeça, literalmente, a nobre francesa tecia considerações sobre a eventualidade de que, caso o Rei fosse encontrado devidamente trajado, preso não teria sido, tamanha a carga simbólica que isso derramaria sobre seus perseguidores.

Ou não... A Revolução Francesa, já comentei por aqui, foi pródiga em romper com símbolos, inclusive religiosos,e a própria ideia de restauração de monumentos é correlata ao ensejo de retorno da monarquia.

Felizmente, nosso ofício perdeu o viés reacionário e já podemos trabalhar, sem temer a volta de ultrapassados regimes políticos. Confere?

Porém, observo a posse do Presidente, que, justiça seja feita, não inventou o desfile em carro aberto. Embora, melhor lhe coubesse acenar aos presentes em um tanque de guerra. Mas não... manteve-se o Rolls Royce, safra 1953.

Reza a lenda que o augusto veículo foi um agrado da Rainha da Inglaterra, mas, nós, que já assistimos “Crown”, sabemos que naquele ano, Elizabeth ainda era uma Princesa... logo, não estaria por aí, distribuindo mesuras.

Não, o carro foi mesmo encomendado, e pago, pelos plebeus brasileiros. Mas como a versão é muito melhor que o fato, repete-se que o Rolls Royce foi presente da jovem monarca.

E por que isso? Bem, amigo, que assiste de norte a sul, de leste a oeste, esta festa diretamente de Brasília, a resposta certa é: o veículo enobrece o veiculado. Mesmo que seja um carro velho, importado, que em nada se relaciona à História do Brasil, a simbologia, para o engrandecimento do Estado brasileiro, parece indispensável.

Me recordo que, na primeira ou segunda posse de Lula, quando alguém já então poderia ter tido a percepção de que o Rolls Royce deveria ser substituído por qualquer outro símbolo sobre rodas, os jornais trouxeram uma foto de um grupo de homens, empurrando um carro para faze-lo subir uma rampa de garagem.

Era o nobre RR, que não pegava e, já quase sexagenário, precisava do reforço da plebe rude. Isso é que é carga simbólica...o resto é fantasia. Era o povo de sempre, a ala da força, suportando o peso real. Exatamente, quando se poderia reconhecer que o carro representava a expressão daquilo que, com a posse do operário, se pretendia eliminar: a opressão da classe dominante, a dependência econômica do país ou o simples vilipêndio à indústria nacional. Que nada, o carrão sobreviveu.

Pode parecer que propugno pelo descarte, puro e simples, do provecto veículo. Longe de mim. Sessenta e cinco anos já lhe permitiriam, até pelas pretendidas regras da Previdência, uma aposentadoria digna. Afinal, sua trajetória, que em quilômetros, reconheçamos, não há de ser grandiosa, pela história que tem para contar, já indicaria seu tombamento e merecido sossego.

O Museu da República, por exemplo, poderia ser um bom destino para ele, ou o Museu Histórico Nacional, que já possui um belo acervo de coisas rodantes.

Aliás, uma visita a este último revelará uma pequena, mas competente, exposição de retratos de D. João VI, cuja sagração, aqui no Rio de Janeiro, completou 200 anos. Indo lá, aprende-se que o retrato do rei (Ana Miranda, em excelente livro com este título, também trata disso) equivalia à sua própria presença, e, talvez por isso, ver-se-á, a partir dessa semana, a substituição da imagem presidencial, em todas as repartições federais do Brasil.

E porque WW quis uma faixa no peito para chamar de sua. Realeza substituindo realidade. Fakenews: coisa antiga. E, só nos falta o guri da história para apontar e dizer:

- O rei tá nu!

* Arquiteto Urbanista, DSc