Queixei-me de baratas

Sempre quis começar um artigo, plagiando Clarice Lispector, e, tal e qual, apenas declarar: “Queixei-me de baratas”, para seguir criando uma crônica deliciosa sobre a ambiguidade da mulher em face de seus atávicos horrores e, por sensível, estabelecer insólita empatia com suas potenciais vítimas.

Infelizmente, não sou a genial Clarice, logo não me é dado continuar o primeiro artigo do ano - e de que ano! - simplesmente vos informando de que me queixei de baratas.

Principalmente, porque, sendo hoje o dia que é, deveria estar debruçado sobre Diários Oficiais da União e do Estado prospectando nomes e cargos, embora já conheçamos uns tantos, mas de qualquer forma seria bom situar, ou ao menos me certificar de que não foram abatidos por algum drone ou uma simples pistola, tão ao gosto dos novos ocupantes, órgãos vitais, além do coração, rins e pâncreas, mas também Iphan, Inepac, Cehab...

Por dever de ofício deveria correr a ver onde, na esfera federal, foram parar a cultura e o urbanismo, já que milito na simbiose dos dois, pois o que é uma cidade se não a concretude da cultura de seus habitantes? O que é que dá sentido ao patrimônio, dito construído, se não toda a carga de emoção que possa estar impregnando pedaços de madeira, barro cozido, umas tantas ferragens: os ingredientes do que chamamos arquitetura, mas que em verdade é um brinquedo de armar em que se encaixam formas que denominamos belas, trechos de fatos e gentes que fizeram parte da algum passado glorioso, para logo a seguir, entende-lo vergonhoso, mas ainda assim, histórico. É possível que adicionemos alguma crença que ajudou em certo momento a que determinados grupos nela se amparassem para seguir levando suas vidas. E que para isso edificaram templo, que em alguns casos dominou a paisagem ou em outros a polícia baixou o sarrafo. Folheio em desespero o DOU, mas nada disso percebo...

Na esfera estadual, nem chego a tanto, pois parece que tudo o que nos reserva é discutir quem fica dentro ou fora da cadeia e, se quem mata entra, ou se quem fica fora para poder matar os que potencialmente deveriam estar dentro, mas estão fora. Isso em um Estado onde poder-se-ia temer que a transmissão do cargo viesse a ocorrer dentro de uma penitenciária, já que, há um mês, um dos presos era governador. E assim desisto.

Afora isso, terminei na semana passada, comentando que um novo órgão metropolitano havia sido criado pela Assembleia Legislativa do Estado, e pagaria um doce, a quem me contar o que o Governador WW acha disso. Ou talvez perguntar a um dos titulares em cujas secretarias a questão metropolitana estará dispersa? Ao menos, no caso estadual, os nomes das secretarias, já que não os dos secretários, nos são familiares. Parece-me, portanto, aconselhável, aguardar umas semanas e esperar a nomeação do também recém-criado Conselho Deliberativo da Região Metropolitana, o que poderá nos dar indicações de como o novo governo vai lidar com 80% dos seus habitantes. Prossigamos, pois...

Estou também diante da incumbência de comentar a votação do novo Código de Obras da Cidade do Rio de Janeiro, coisa que, à primeira vista, parece ser importantíssima, mas que, tendo em vista o grau de irregularidade que a atividade tomou, seja como ocupações efetivamente informais, como os aglomerados favelados, ou as novas formas de especulação imobiliária miliciana, ou ainda a forte incidência das regularizações arrecadatórias dos decretos conhecidos como Mais Valia, que importância pode ter um código de obras?

Quem são os infelizes que devem segui-lo, além dos arquitetos, que precisam sabe-lo de cor, por labutarem no pequeno nicho da atividade edilícia formal que restou à nossa urbe?

Após destilar todas as minhas amarguras, me vejo com mais razões para me roer de inveja de Clarice.

Fiquem baratas!

* Arquiteto e Urbanista, DSc