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Coluna da Segunda - Annus horribilis

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Depois de 15 dias de muita neve e frio sempre abaixo de 10 graus em Moscou, cidade imponente e bela que nada deve às principais capitais da Europa, fiz um longo voo de volta ao Brasil. São cerca de 4 horas do aeroporto de Domodedovo até Heathrow em Londres, nas quais o avião, depois de atravessar a Bielorrússia e a Lituânia, passa ao largo da Dinamarca e pega um ponta da Holanda até chegar à Inglaterra. Após a escala londrina, vem a perna mais longa, de 11 horas, bordejando a Espanha e Portugal e enfrentando a cansativa travessia do Atlântico até avistar a terra firme do Ceará. Desculpem-me pelos detalhes da rota. Mas, durante boa parte da viagem, fiquei matutando sobre o que escreveria na coluna desta segunda, que marca o fim de 2018 e a véspera da posse de Jair Bolsonaro. Impressionado com tudo que vi na Rússia, pensei que Bolsonaro não tem força suficiente para enterrar nossos sonhos.

Vingativo e reacionário, o capitão reformado quer transformar as conquistas sociais em terra arrasada, mas quatro anos de governo passam rápido. Outros povos viveram situações muito mais críticas em sua história (vale lembrar os horrores cometidos pelas tropas de Hitler na Bielorrússia), mas deram a volta por cima. Londres foi bombardeada duramente pelos alemães na II Guerra, e resistiu. Paris foi ocupada de 1940 a 1944, e também sobreviveu aos nazistas. Logo, por pior que seja a gestão Bolsonaro, o Brasil, mais à frente, vai retomar o caminho de combate às desigualdades sociais. Esse é o nosso destino, concluí durante o voo, com uma certa dose de esperança. Pensei até em adotar o bordão do grande João Saldanha que decorava a parede da editoria de Esportes do JB na sede da Avenida Brasil: “Vida que segue”.

Porém, assim que cheguei ao Rio e tomei pé das notícias, o otimismo fraquejou. Primeiro, vieram os detalhes da posse, com mais de 4 mil homens do Exército, atiradores de elite na Esplanada dos Ministérios e a proibição para carrinhos de bebê e guarda-chuvas, considerados perigosos artifícios a serem usados por terroristas. A festa da posse ganhou contornos de parada militar. Se há tanto temor por parte do aparato de segurança, o mais correto seria aconselhar ao povo de Brasília que fique em casa, em segurança, acompanhando o evento pela TV. Acho que nem o general De Gaulle, alvo de dezenas de atentados e na alça de mira do perigoso Carlos, o Chacal, cercou-se de tanta precaução ao circular por Paris. Tudo a ver, no entanto, com os sonhos bonapartistas de Bolsonaro, que aposta todas suas fichas no apoio das Forças Armadas.

No Twitter, o sucessor de Temer reproduziu entrevista que deu à Rede TV. A frase com que ele abre o diálogo é uma pérola de farisaísmo: “O Brasil vive uma profunda crise ética e moral”. A que fatos Bolsonaro estaria se referindo exatamente? Estaria o novo presidente se referindo à movimentação financeira atípica de Fabrício Queiroz, ex-assessor de seu filho Flávio Bolsonaro. Estaria preocupado com o fato de funcionários do gabinete de Flávio na Câmara transferirem seus salários para a conta de Queiroz? Ou ele acredita que Queiroz apenas realizou compra e venda de automóveis? Embora bem sucedido nos negócios, o ex-assessor teria pedido R$ 40 mil emprestados a Bolsonaro e, ao pagá-lo, fez depósitos na conta de Michelle Bolsonaro. O Brasil não sei, mas uma crise ética e moral ronda o gabinete parlamentar de um dos Bolsonaro.

Outra notícia jogou por terra toda e qualquer boa vontade. O politico profissional que assume a Presidência amanhã já anuncia um decreto flexibilizando a posse de arma. Acredita que, com a população armada, vai reduzir a criminalidade. Os especialistas acham exatamente o contrário. Segundo eles, haverá aumento nos índices de homicídio, e também nos de suicídios. Homens de bem não precisam de armas para resolver seus problemas, ensinou-me meu pai, tenente da reserva pelo CPOR. Sou forçado a reconhecer, porém, que Bolsonaro acerta num ponto, ao prever “um governo difícil” a partir de janeiro. Foi modesto. Tudo indica que vem por aí uma série de “annus horribilis”, para usar a expressão da rainha Elizabeth, em 1992, quando divórcios abalaram sua família e o Castelo de Windsor pegou fogo. Mas Elizabeth continua viva. Há que resistir aos anos horríveis.

Apesar de tudo, um Feliz Ano Novo para quem não deixa de acreditar que a prioridade número 1 de um governo é a justiça social.