O “presidencialismo de coalizão” foi responsável pela moderação das reformas sociais nos governos Lula/Dilma em nome da garantia de uma governabilidade. Cada ponto programático sofria uma releitura que agradasse tanto camadas dominantes quanto as classes subalternas cooptadas pelas bandeiras sociais. O reformismo fraco dominou os governos anteriores ao impeachment. Portanto, seria fantasia considerar que a burguesia brasileira deixou de ter grandes lucros nos tempos do “petismo”.
As primeiras sinalizações do mandatário recém-eleito para o Governo Federal sugerem que o modelo conhecido como “presidencialismo de coalizão” está com seus dias contados. A postura de continuar numa sensação de constante campanha e a desqualificação da negociação política como se fosse produtora de ações de má fé demonstra o grau ao qual atingiu a crise da representatividade. O Presidente eleito “terceirizou” as decisões econômicas nas mãos de um atípico “czar da economia” como reserva técnica para sua articulação com a elite econômica do país. Por outro lado, sua comunicação digital referenda manifestações ideológicas mais apropriadas aos tempos da Guerra Fria.
O novo Governo reinventa a herança centralizadora da formação histórica do Brasil. O “populismo sebastianista” é a face autoritária da ação política que estaria acima das classes sociais e dos atores políticos. Além disso, a crise do sistema partidário é uma das características desse quadro alarmante que poderão afetar nossa estabilidade democrática. As forças de Centro-Direita renunciaram o exercício do Executivo em favor de um programa ultraliberal na economia. A Direita e suas vertentes extremistas ensaiam um projeto de longo prazo aproveitando um vazio político do Centro Democrático. As lições da derrota ainda não foram assimiladas pela Centro-esquerda e pela Esquerda uma vez que nenhum ator político teve a iniciativa de fazer uma autocrítica de suas ações particularmente na renovação de seus quadros de dirigentes. As forças democráticas deveriam reler o clássico marxista O 18 Brumário de Luís Bonaparte que é uma contribuição para a realização da análise de conjuntura atual. Para além das simplificações que caracterizariam essa sugestão de reflexão, prefiro deixar a seguir uma passagem do livro citado para as devidas considerações:
“(...) A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxilio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar e nessa linguagem emprestada (...)”.
Nesse momento, está em configuração um processo de bonapartismo no qual a centralização política e administrativa poderá entrar em contradição com os princípios democráticos da Constituição de 1988. A fragmentação política do Congresso Nacional pós-2018 reforça o enfraquecimento do legislativo. Os movimentos da sociedade civil aprofundam a individualização. Portanto, a defesa da Frente Democrática é urgente para evitar o pior enquanto ainda há tempo.
* Mestre em Sociologia e professor de História