No tempo em que os animais falavam e a humanidade não estava nem aí para o colesterol, um galo encontrou-se com um leitão ao pé da escadaria da Universidade de Chicago. Ambos moravam na mesma fazenda e foram voltando juntos para casa. O galo parecia muito excitado com as aulas de macroeconomia para idiotas, curso muito procurado naqueles tempos. “Sabe, caro leitão, a aula de hoje foi de nosso mútuo interesse”, disse o galo. O leitão, que nunca tivera grande amizade por aquele despertador da fazenda, limitou-se a grunhir de forma indiferente e até um pouco desdenhosa. Mas o galo se fez de desentendido: “hoje o Dr. Corvo falou sobre a importância das joint ventures e, imediatamente, me lembrei do senhor, meu caro leitão”. “Imagina só que os humanos aqui em Chicago consomem no breakfast dois ovos estrelados com três fatias de bacon, senhor leitão. Se nos juntássemos nesta empreitada poderíamos ficar ricos. Eu tenho mais de 20 galinhas em meu galinheiro e sei que o senhor e sua patroa controlam uma família muito bela de leitõezinhos, leitoas e leitões. É o que o professor Corvo chama de “janela de oportunidade”. Poderíamos, senhor leitão, fazer uma bela joint venture; entro com ovos de minhas galinhas e o senhor com o bacon da sua família”, concluiu o galo. O leitão, que ouvira tudo calado, mas se enrubescia com a proposta do xerife de galinheiro, respondeu-lhe pausadamente entre palavras e arrotos incontidos. “Olhe aqui seu garnizé de bosta; vivo em chiqueiro e sei bem a diferença entre lama e estrume. O senhor está me propondo um arranjo genocida. Para dar-lhe o bacon, minha família e eu morremos; enquanto suas galinhas alegremente põem ovos todos os dias”. O galo, perplexo diante da reação do leitão, comentava com seus botões. “Bem que o Dr. Corvo avisou: em toda joint venture sempre alguém se dá mal”. Depois desse dia, os animais jamais se falaram de novo. O leitão influenciou a academia de medicina a inventar o tal do colesterol, que poupou-lhe a família e empobreceu a do galo, cujas companheiras começaram a ser servidas ao molho pardo.
O que se passa no mundo animal, às vezes também se passa no mundo dos humanos, conhecidos como animais racionais, distinção que me parece altamente questionável. Aqui no Brasil, apesar de a Constituição de 1988 ter garantido a proteção do trabalho e uma vida digna para os cidadãos, supimpas economistas têm desenhado programas de governo que restringem aqueles direitos. Apresentados em nome do povo, fatalmente sempre o empobrecem. Ronda o destino do povo uma entidade etérea chamada mercado, cujas leis, regras e humores frequentemente conflitam com o bem-estar social. E o fundamentalismo econômico de Chicago assevera que o mercado se equilibra naturalmente. Decorre daí que o Estado deva apequenar- se e idealmente evitar que o arranjo mágico do mercado seja perturbado. Os Chicago “boys” de hoje e de sempre são explícitos : “a democracia social é um erro”. A Constituição de 1988, na visão deles, nada mais é do que o sonho de empedernidos românticos. Será que não é fundamentalismo demais para um povo só?
Quando se sabe que 10% do produto brasileiro (cerca de R$ 500 bilhões) é sonegado por pessoas jurídicas e físicas no Brasil, me pergunto se o Dr. Guedes, antes de acabar com as estatais, antes de cortar ainda mais os gastos sociais, antes de defender uma reforma previdenciária antissocial, não deveria promover um simples rearranjo tributário capaz de reduzir a evasão fiscal, taxar o lucro de dividendos e recuperar os 500 bilhões garfados. Não sou economista e nunca pisei em Chicago. Mas, como o leitão, desconfio que estão menosprezando a inteligência da sociedade brasileira, que anda com a raiva santa dos ludibriados. Há quem imagine que aprofundar os remédios amargos do neoliberalismo seja inevitável. Não sou profeta nem tenho linha direta com os deuses. Apenas sei que a hora não é de estagiários. Os iluminados que me perdoem, mas não vejo no mundo nada que o Brasil deva imitar. A hora é de estadistas.
* Embaixador aposentado