Pré-sal: novo ciclo colonial?

O petróleo do pré-sal foi descoberto há 12 anos e já produz mais de 1,5 milhão de barris por dia. No Mar do Norte foram necessários 50 anos para alcançar o mesmo patamar de produção. Um sucesso que contradiz declarações divulgadas pela mídia de que o pré-sal só existe na cabeça dos políticos; de que era inviável ser produzido com as tecnologias da Petrobras; de que seria necessário capital e tecnologia estrangeiros ou de que os custos seriam inviáveis.

Os entreguistas perderam todos os argumentos, mas apelam afirmando que o petróleo é um recurso sem valor, que precisa ser entregue às multinacionais estrangeiras e produzido a toque de caixa enquanto tem algum valor. Ou então “apontam os carrapatos para justificar a entrega da vaca”. Dizem que a solução para a corrupção que vitimou a Petrobras só pode ser enfrentada com sua privatização. Entregam a galinha dos ovos de ouro em vez de guardar, dos corruptos e corruptores, o valor gerado pela estatal. Querem entregar o meio de produção de toda a riqueza para evitar que uma fração possa ser roubada por empresários cartelizados corruptores, políticos traficantes de interesses e executivos de aluguel. Com tudo entregue não há o que guardar. Nenhum país se desenvolveu exportando petróleo através de multinacionais estrangeiras. Mais geral ainda, nenhum país, populoso e continental como o Brasil, se desenvolveu exportando matérias-primas.

O petróleo é uma mercadoria especial, na medida em que não tem substitutos em equivalente qualidade e quantidade. Sua elevada densidade energética e a riqueza de sua composição, em orgânicos dificilmente encontrados na natureza, conferem vantagem econômica e militar àqueles que o possuem. A sociedade que conhecemos – sua complexidade, sua organização espacial concentrada, sua produtividade industrial e agrícola, o tamanho da superestrutura financeira em relação as esferas industrial e comercial – foi erguida e depende do petróleo.

O carvão e o petróleo, ao contrário das energias potencial e cinética dos cursos naturais de água, são fontes geograficamente móveis de energia. Essa característica permite a concentração geográfica da força produtiva da sociedade em espaços centrais, urbanos de produção. O petróleo e seus derivados são extremamente concentrados em termos de energia, além de flexíveis para uso. A energia solar é abundante, mas tem densidade energética mínima, o que resulta em menor capacidade relativa de realização de trabalho. O petróleo tem muito maior potencial para aumentar a produtividade e a eficiência do trabalho humano. Transporte, eletricidade, comunicações (internet, celulares), aquecimento, indústria, extração mineral, agricultura, processamento e distribuição de alimentos, pesticidas, fertilizantes, plásticos, infraestrutura e força militar dependem do petróleo. São fatores estratégicos ao desenvolvimento, à segurança energética e alimentar. São elementos essenciais da soberania nacional.

Existe forte correlação entre o crescimento econômico e o consumo de energia. Também existe correlação entre o desenvolvimento humano (IDH) e o consumo de energia primária per capita. Para alcançar alto desenvolvimento humano, o Brasil precisa aumentar muito o consumo de energia. Estimo necessário o aumento de cinco vezes no consumo de energia primária nacional para que nossa população atinja padrões de vida de primeiro mundo. Para que o Brasil se desenvolva é necessário produzir o petróleo do pré-sal na medida da nossa necessidade. Deve-se agregar valor ao petróleo cru com sua transformação em mercadorias úteis, por meio do refino, da petroquímica, da química fina, da indústria de fármacos e de fertilizantes. Não devemos embarcar em novo ciclo do tipo colonial e permitir a exportação do petróleo cru, muito menos por multinacionais que esgotaram suas reservas e cobiçam nossos recursos para resultados privados de curto prazo, e possivelmente predatórios.

Ainda sofremos as consequências de nossa herança colonial e escravocrata. A classe dominante no Brasil é acostumada a viver em subserviência aos interesses estrangeiros. A cultura desta fração da sociedade é mimética, se copiam valores e visões de mundo que vêm de fora. Na indústria do petróleo, na qual o consenso é lugar-comum, as consequências podem ser ainda mais deletérias. No entanto, somos herdeiros da maior mobilização popular contemporânea, a campanha “O Petróleo é Nosso”. Está no DNA da Petrobras, a maioria da população garantiu a criação da estatal, as descobertas de petróleo no Brasil e nosso amadurecimento industrial. Ainda hoje, se temos a Petrobras e o pré-sal é porque a maioria da população defende e reconhece valor na companhia.

Precisamos interromper este novo ciclo do tipo colonial de exportação de matérias-primas por corporações estrangeiras. É necessário revogar a privatização do petróleo brasileiro e dos ativos da Petrobras às multinacionais estrangeiras.

* Engenheiro químico