Salve Elza, Djamila, Conceição!

Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro, Taís Araújo, Sueli Carneiro. Elza Soares. Mulheres negras que resistiram até que suas vozes fossem ouvidas. Que brigam para que suas falas construam a desnaturalização do racismo. Foi batendo na tecla do lugar de fala que essas mulheres negras maravilhosas fincaram pé na literatura, na filosofia, nas novelas, no teatro. Na música, Elza Soares veio antes. Antes de saber que era feminista, antes de entender conceitualmente que “o meu país é meu lugar de fala”. Elza veio rasgando as cortinas dos palcos da vida, antes que as cortinas dos tablados abrissem para a sua música com sua voz cortante, gritante. Elza veio da favela antes que se chamassem comunidades, ficou grávida aos 13, teve sete filhos, perdeu dois para a fome. Vida triste a de Elza. Não, Elza é mulher. Cuidou dos filhos, dos maridos, da voz, da cor. Deus é mulher. Deus é a voz de Elza Soares entoando a força da mulher. Da mulher negra. E aí está ela: vida feliz, nos palcos. Estampada, linda, barulhenta, sorridente. Enchendo os ouvidos da voz que “usa pra dizer o que se fala”. Tapa na cara do racismo com luva de pura música que paralisa pela sua beleza. Elza Soares traz em si algo de foucaultiano quando se pensa o poder: ela é a dona de seu corpo, portanto tem o poder sobre si, sobre sua história, sua imagem, sua arte. Ela é a sua própria voz. A sua própria consciência negra, feminina e feminista. Salve, Elza Soares!

Conceição, Djamila, Taís e Sueli fazem coro com Elza. Coro de mulheres negras que sabem o que falam e de onde falam. Sabem que ainda têm muito o que falar. Prova disso foi o único voto que Conceição Evaristo recebeu para ocupar a cadeira de número sete da Academia Brasileira de Letras. Um único voto secreto. E olha que ela ganhou Jabuti, publicou dois romances, três livros de contos, livro de poemas. É mestre e doutora em Literatura. Se teve um único voto à ABL, Conceição recebeu grande homenagem na Flip, incansavelmente ouvida e aplaudida.

Djamila ensinou e segue ensinando o que é lugar de fala. Com ela, esta articulista branca aprendeu que uma mulher branca pode sim discutir o racismo. Do meu lugar de fala, posso me incomodar com a discriminação, posso ter uma visão crítica, me colocando também como responsável histórica pelo racismo e trabalhando pela sua desnaturalização. Afinal, eu, enquanto mulher, também sou colocada como “o outro” pelo homem branco que se pronuncia numa sociedade patriarcal. Com Djamila Ribeiro aprende-se que a voz da mulher negra, da mulher branca, da mulher enquanto gênero não deve ser interpretada apenas como emissora de palavras. Deve ser pensada enquanto discurso, para discutir o poder de cada uma e de todas juntas. Salve, Djamila!

Taís enche de talento as telas e os palcos. E fez campanha pelas bonecas negras para presentear sua filha. Como são lindas as bonecas negras. Brigou com racistas cretinos nas redes sociais. É protagonista. Sempre com inteligência e um sorriso lindo.

Sueli criou o Geledés – Instituto da mulher negra, que abastece esse artigo com os números do racismo escancarado. Segundo o dossiê “A situação dos direitos humanos das mulheres negras no Brasil: violência e violações”, as mulheres negras são 64% das vítimas de homicídios no país. O site do Geledés traz em sua capa a pergunta incansável: Quem matou Marielle? A vereadora negra integra essa estatística.

Ainda sobre o racismo em números: de acordo com o Atlas da Violência do Ipea, são assassinadas no Brasil 71% mais mulheres negras do que brancas. Mulheres negras são quase 60% das vítimas de violência doméstica e quase 70% das mulheres mortas por agressão dentro de casa. Na semana em que se comemora o Dia da Consciência Negra, os números mostram que a data é de festa e de atenção ao racismo machista.

lídice leão*

* Jornalista e mestranda em

Psicologia Social pela USP