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Liberdade, sem emprego, sobe o morro

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Na voz de Cauby ou a convite do simpático bloco “Escravos da Mauá”, desceu Conceição.
“Se subiu, ninguém sabe, ninguém viu”, mas ao menos aquela que dá nome ao morro encravado na Zona Portuária do Rio de Janeiro, quando o fez, foi para abençoar a pequena capela erguida em uma das quatro elevações que, por séculos, delimitaram a cidade.
Duas, como sabemos, foram parar no mar, originando os grandes aterros. Outra, recente e criminosamente, foi perfurada por um túnel que transformou a joia rara do patrimônio carioca em via de tráfego pesado: a Primeiro de Março varou São Bento.
O morro que nos resta, o da Conceição, esquecido pelos drásticos projetos urbanísticos que tanto mexeram com a geografia da cidade, ainda assim, perdeu, com o grande aterro que originou o porto, o contato com a baía. A seus pés, o largo da Prainha não vê água há uns 100 anos.
Mas antes disso, Conceição, a capela, também subira na vida, chegando a se transformar no Palácio dos Bispos, até que, pelos anos 1920, foi adquirida pelo Exército e incorporada à fortaleza que, desde o século 18, também levava seu santo nome. Vendida e dessacralizada, coitada, foi desmontada e Conceição desceu.
Lá se foi a centenária imagem para longe: Museu da Cúria, São Paulo. À época, com metade da população da então capital federal, mas já capaz de lhe drenar encantos. Nos 40 anos seguintes, ultrapassava-a em população e logo lhe roubava bancos e a Bolsa, com todos os seus Valores, arrastava carros da Fórmula 1... e, na semana passada, lia-se aqui no JB que mais uma fábrica ia ser subtraída à Baixada Fluminense.
Mas não uma qualquer. Esta mescla história de empreendedorismo, sucesso empresarial e um forte símbolo etnográfico: cabelos.
Não é de hoje que Conceição, moça negra, bonita e brejeira, de alguma cidade da decadente região cafeicultora fluminense, desce a serra para se empregar nas casas da classe média carioca, sem nunca ter se preocupado com “o pente que te penteia”. Logo, com trágica ironia, para uma descendente de escravos, com ferro quente, esticará aquilo que anos depois será símbolo da revolta negra norte-americana. Mas naquele quartinho de apartamento em Copacabana, Conceição se mira no pequeno espelho, ainda com os olhos dos cativos.
Mas que brilharão mais forte, diante da possibilidade de trocar o rigor do ferro por milagroso produto, cujo nome bonito soava em francês: henê, embora a semelhança com henné se limitasse ao som.
Mas Conceição não sabe francês e o produto, cantado em todos os jingles que escutava no rádio da cozinha, patrocinava música, novela e patrulha da cidade.
Das ondas do rádio às telas globais, só Deus (e a Anvisa) sabe dizer quanta química passou pelo couro cabeludo de Conceição, para enfim poder exibir cacheados fios de variadas cores.
E é nesse esforço de alquimista capilar que surge o pivô da notícia recém-publicada, que nos conta que, em 1981, um filho humilde de Nova Iguaçu desenvolve um shampoo, no início, vendido à vizinhança, até que o sucesso alcançasse a tal casa do BBB. É o píncaro da glória.
Em 2014, já com um centro de distribuição de 10.000m², é comprada pela gigante francesa de cosméticos que, pasmem, em apenas cinco anos, decide que o que até ali ia tão bem agora vai mal e que bom mesmo é São Paulo.
As razões alegadas soam pífias. A Baixada é violenta. Como se há cinco anos não o fosse. O Rio é menor que São Paulo. Há anos: mais de cinquenta. Consequentemente, lá há mais negros, brancos, amarelos ou qualquer do cinquenta tons de fios, do que aqui...
Comprar para fechar. Concentrar produção alhures e fábrica vazia e operários pasmados, aqui.
É a liberdade de mercado, Conceição, não a sua, que, sem emprego e sem henê, sobe mais um morro.
Mas neste, uma pedra desceu.
C’est fini.

Carlos Fernando Andrade*

* Arquiteto, urbanista DSc