Cinema negro reinventa um Brasil que nunca se vê nas telas

Em setembro último eu havia acabado de chegar à capital federal para participar do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, onde fui para compor o corpo do júri da mostra competitiva de longas-metragens a convite do curador, o cineasta Eduardo Valente. Dez intensos dias me esperavam pela frente quando o telefone tocou e, do outro lado, o convite: fazer um bate-volta ao Rio de Janeiro no meio do festival para gravar uma participação no programa Espelho, de Lázaro Ramos, do Canal Brasil, ao lado de outros realizadores negros icônicos como Joel Zito Araújo, Jeferson De e Viviane Araújo (essa última, assim como eu, também se encontrava em Brasília naquele momento). Foi uma loucura, mas lá fomos nós duas juntas, eu e Viviane, madrugada adentro, a caminho do Aeroporto de Brasília para seguirmos no mesmo vôo rumo ao Rio de Janeiro.

Até então, achava que era somente a gravação de um bate-papo informal com os outros realizadores, mas, ao chegar ao Cine Odeon, onde o programa foi gravado, fomos informados por Lázaro e equipe que o Canal Brasil dedicaria sua programação inteira do dia 20 de novembro a filmes e produções de diretores negros brasileiros, inclusive os nossos próprios filmes, que, no meu caso, era o média-metragem (que faz as vezes de curta ou vice-versa) “Rainha”.

E a gravação do “Espelho” que se seguiu com os respectivos cineastas, era parte dessa programação especial do canal que, esse ano, comemorou 20 anos de existência. A edição especial do “Espelho” irá ao ar hoje à noite após um dia inteiro de exibições de conteúdos audiovisuais assinados por artistas que, até bem pouco tempo atrás, não estariam ocupando esses espaços.

Contudo, uma falta será sentida nessa programação : Zózimo Bulbul, um dos maiores nomes precursores do chamado “cinema negro”. A obra de Bulbul, infelizmente, estará ausente da lista de filmes que irá ao ar nesse 20 de novembro, por conta de questões burocráticas relativas aos direitos de exibição de suas produções no canal. Todavia, no decorrer do programa “Espelho”, o cineasta será lembrado nas falas dos entrevistados e nas exibições de alguns trechos de um de seus filmes. Antes, porém, o curta-documentário “Retratos Brasileiros – Zózimo Bulbul” (2006), de Lázaro Ramos, que narra a trajetória de Bulbul, será exibido às 17h30.

Ter meu último trabalho exibido dentro dessa seleção de filmes assinados por cineastas negros de diferentes gerações, como os pioneiros Adélia Sampaio e Joelzito Araújo; de gerações posteriores como Jeferson De; e contemporâneos como Glenda Nicácio, Gabriel Martins, André Novais, Michelle Mattiuzzi, Bruno Ribeiro entre outros, curadas pelo Canal Brasil, é a coroação não só da carreira espetacular do filme, como de um propósito em comum a todos nós realizadores negros: o de ocupar, em pé de igualdade, os devidos espaços de visibilidade em todos os setores da cadeia evolutiva do audiovisual brasileiro.

“Rainha” abre a exibição da seleção de curtas dirigidos por mulheres negras que ocupará a grade vespertina do Canal Brasil e está programado para ir ao ar às 13h40. O filme conta a história de Rita (interpretada por Ana Flávia Cavalcanti), aspirante a rainha da bateria da escola de samba local. A busca pela realização desse sonho acaba conduzindo a personagem a um verdadeiro “tour de force” pessoal, que a leva a caminhos nada aprazíveis. O filme, fotografado em preto e branco por Julia Zakia, e filmado durante pleno carnaval de 2016, na pequena cidade interiorana de Cataguases, Zona da Mata de Minas Gerais, foi muito além das melhores expectativas da nossa equipe. Estreou mundialmente no Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro, o Curta Cinema, daquele mesmo ano, saindo vencedor do troféu de Melhor Filme pelo Júri Popular.

Dai em diante, decolou para uma viagem que parece estar longe de chegar a seu destino final. Ao todo, até o presente momento, ganhou 10 prêmios, percorreu os 27 estados do Brasil, foi selecionado por cerca de 120 festivais nacionais e internacionais, foi exibido na Europa, América do Sul e duas vezes no continente africano (em Gana, no prestigiado Chale Wote Street Art Festival e em Moçambique, no Kugoma – International Short Film Festival), no México (no Shorts Mexico - International Short Film Festival), entre outros, e agora vai concorrer na mostra competitiva do LABRFF – Los Angeles Brazilian Film Festival, que ocorrerá em dezembro próximo na capital da California. Em janeiro o filme será exibido dentro da mostra internacional Pan African Cinema Today (PACT) do Festival de Cinema de Rotterdam. Isso sem contar a agenda mensal de exibições do chamado “circuito alternativo” que compreende universidades, escolas, eventos culturais, cineclubes, exibições em comunidades, interiores, escolas de samba, reuniões e afins.

O filme não para. Mas o que faz um filminho de 30 minutos conquistar tantos corações, interesses e espaços? A resposta que tenho é, sobretudo, a necessidade de pessoas não-brancas se verem representadas na tela. Coisa que nos foi negado sistematicamente ao longo de todas as décadas, em se tratando da história da nossa cinematografia e audiovisual, que sempre se espelhou num ideal eurocentrado de representação, relegando às pessoas negras, mulheres e indígenas, por exemplo, uma mera subrepresentação estereotipada e hiper sexualizada através de estigmas pós-coloniais e machistas.

Rita, a heroína de “Rainha”, se torna uma rainha de bateria. Contudo, optei em não explorar seu corpo de forma desnecessária. Há mais camadas do que pele em sua composição. Ela não precisa se prostituir, fazer sexo com homens mais velhos ou ser uma empregada subserviente e sem núcleo familiar dentro da narrativa. E acredito que esse seja um dos motivos que movem tantas pessoas a assistirem “Rainha”; elas estão cansadas de se verem sub representadas através de um olhar que não as contempla e as diminui. Nesse sentido, não só “Rainha”, como tantos outros filmes de cineastas negros da geração contemporânea a minha, estão fazendo história ao atrair um público infinitas vezes maior do que muitas produções milionárias fomentadas com dinheiro publico, e que, passam batidas em salas vazias do circuito comercial. Fazemos filmes para serem vistos. E o povo se enxerga em nossos filmes. E esse é o novo paradigma do cinema brasileiro.

Fato é que o mercado cinematográfico brasileiro ainda é protagonizado por homens brancos. Em pesquisa realizada pela Ancine, em 2016, dos 142 longas-metragens analisados, apenas 2,1% são dirigidos por homens negros e 0% pelas mulheres negras. Corroborando esses dados, o Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA), da UERJ, publicou análise sobre os filmes com mais de 500 mil espectadores entre 1970 e 2016. O resultado demonstrou que 98% das películas foram assinadas por caucasianos. Além disso, o boletim também expôs o baixo índice de 11% para os personagens principais afrodescendentes. Isso sem contar os números referentes aos conteúdos das TVS abertas e fechadas, como, por exemplo, as novelas e séries de TV. Por essas e outras, a iniciativa do Canal Brasil de dedicar um dia inteiro de sua grade aos olhares negros, mesmo apenas no dia 20 de novembro, é um passo importantíssimo na luta pela igualdade racial.