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Escola sem verba

Jornal do Brasil VAGNER GOMES DE SOUZA*

No Congresso Nacional está em debate o polêmico projeto de lei alcunhado de “Escola sem Partido”, que entrou na pauta após diversas manifestações de personalidades do meio político, causando um clima de desarmonia na relação entre professores e alunos. Não seria interessante conviver numa realidade educacional em que o aluno é convidado a fazer filmagens ao contrário de debater conhecimento e ideias. A autoridade da sala de aula está sendo fraturada pela ideologização de setores políticos que deveriam incentivar a leitura dos alunos.
São tempos estranhos ao ponto de comentários de uma questão de interpretação de texto do Enem ser avaliada de forma política como “sem utilidade”. O tratamento republicano das propostas pedagógicas não pode ficar em segundo plano. O respeito ao papel do educador sugeriria um melhor abordagem nessa situação. Favorecer uma ponte ao diálogo e a busca dos motivos e critérios pedagógicos para cada questão formulada. Há excessos nas considerações de grupos políticos a respeito da prática do ensino no país.
Lamentamos que o clima beligerante seja incentivado como debate sobre educação. Na verdade, trata-se da falta de debates que leva a esse ponto. A educação brasileira não pode ser palanque para polêmicos “factoides” à medida que seus principais problemas ganham invisibilidade. O risco de termos uma década perdida na educação da juventude é o que deveria ser relevante.
As forças conservadoras questionam a existência da doutrinação em sala de aula sem levantar nas tribunas do parlamento a situação dos baixos salários recebidos pelos professores no Brasil. Temos profissionais de educação com uma diversidade de problemas de saúde que os afastam das salas de aula e com quadros de falta de motivação. Os cursos de licenciatura estão com poucos jovens interessados na prática docente no futuro. A profissão de professor está em processo de gradual envelhecimento.
A valorização da polarização da política no campo da educação afasta a harmonia nas equipes pedagógicas. Neste aspecto, outros problemas educacionais ainda são desafios em nosso país, e as forças conservadoras parecem não desejar enfrentar. Por exemplo, o analfabetismo é persistente e soma-se ao analfabetismo funcional. A educação brasileira é vítima de um projeto elitista de termos escolas sem verbas para enfrentar essas questões. Assim, os recursos públicos aplicados na educação foram congelados pela Emenda Constitucional 95, atrasando nosso salto para o mundo do conhecimento. A escola sem verba precisa ser enfrentada com urgência.
A autonomia pedagógica nas escolas públicas sempre se desenvolveu nos limites da aplicação das verbas. Agora, as manifestações sobre o exercício da prática docente impedem que problemas mais graves sejam superados. Os desafios e a pluralidade de conhecimento devem ser resolvidos com a participação das comunidades escolares. Portanto, não é o “macartismo” pedagógico que vai melhorar o desempenho dos jovens brasileiros em língua portuguesa, matemática e ciências. Esse é o momento de aproveitar todas as linhas de conhecimento, pois a educação ganha com a pluralidade e com mais verbas.

* Mestre em Sociologia e
professor de História