Faroeste carioca

No alvorecer da Guanabara, aprendíamos que o novo estado era dividido nas zonas Urbana, Suburbana e Rural. Suburbano logo viraria adjetivo depreciativo. Ruralista, que não tinha o significado atual, pois se dizia latifundiário, nem qualquer outro que lembrasse roça, pois para isso havia roceiro, inexistia.

Mas se vos remeto aos sertões cariocas e se Campo Grande era tido como arrabalde em 1960, imaginem nos tempos do imperador, quando por lá chegou o trem, em 1878.

Porém, como após a estação de Deodoro, criada uns 20 anos antes, houvesse poucas paradas, sistemas locais de vias radiais, escoando a produção rural, transformaram as poucas estações nos principais núcleos da imensa Zona Rural: Santa Cruz, ponto final do ramal, Campo Grande e Bangu atraíam o comércio e serviços compatíveis com a região.

E é aí que surge o herói da nossa história: em Campo Grande, um filho da terra se notabiliza como médico e, já no início da República, se elege deputado, depois senador. Razoável que a pequena estação, criada em 1914, recebesse o nome do filho ilustre: Senador Vasconcelos.

O bairro homônimo, que surge daí, pela proximidade com Campo Grande e pela condição geográfica: contido entre duas serras, pouco se expande. Desenvolve-se, espichando-se ao longo da centenária e jesuítica Estrada de Santa Cruz, e do importante eixo da Cesário de Melo que, pelo vale, também se espremem.

Se, inacreditavelmente, o nobre leitor chegou até aqui, há de se estar perguntando o que Senador Vasconcelos faz neste mundo para ocupar quase metade do espaço que o JB concede a este escriba.

Não se impaciente, já vos digo: foi a maior votação percentual que Jair Bolsonaro recebeu nesta porção do mundo, abençoada por deus e bonita por natureza: 75% dos eleitores.

Do bairro, pouco sei, mas adianto que o pequeno Senador Vasconcelos assimilou umas 12.000 novas almas, nos últimos 30 anos.

Achou pouco? Pois considere que, só no outro extremo da preferência política, verdadeiro enclave da Ursal e único bairro que deu Haddad à frente, Laranjeiras, perdeu, curiosamente, o mesmo tanto de habitantes, em igual período.

Subproduto da retração carioca, caracterizada pelo abandono de áreas infra-estruturadas e a ocupação de áreas vazias, os bairros do antigo sertão carioca vão definindo a estrutura sócio-política daquela que se imaginava a cidade mais politizada do país.

Na verdade, pode ter sido um fenômeno silencioso, mas não recente, pois já há um tempo procura-se enviar os pobres para lá. Lacerda cria uma empresa, que trazia progresso no nome, a Copeg, que propõe distritos industriais, ao longo da Av. Brasil, sendo os maiores em Campo Grande e Santa Cruz, em parte desocupados até hoje, enquanto a Cohab criava conjuntos habitacionais, que recebiam população, compulsoriamente transferida. Na década de 1970, metade da população de Santa Cruz morava em conjuntos habitacionais.

Antes disso, os sítios, então produtores de laranja, lavoura que teve apogeu pouco antes da 2ª Grande Guerra, iam sendo loteados, raramente respeitando-se a legislação, o que fez com que, em plena ditadura militar, uma lei federal criminalizasse a atividade considerada irregular, e aí mesmo é que o parcelamento informal do solo passou à completa marginalidade, pois, não só aqui, mas na maioria das cidades brasileiras, prefeituras têm pouca ou nenhuma capacidade técnica ou vontade política de fiscalizar coisa alguma. Que a milícia se transforme em um agente modelador do espaço urbano é apenas um ato degenerativo do processo.

É nesse cenário que cresce a Zona Oeste, aliás, o Rio de Janeiro: 70% do seu crescimento, embora inexpressivo, ocorre ali.

E, junto com ele, cresce a fé no altíssimo e a multiplicação de seus arautos: Senador Vasconcelos dispõe, por alto, de nada menos que dezoito igrejas evangélicas.

Aliás, ia esquecendo: o senador era Augusto.

* Arquiteto – Urbanista DSc