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A Galáxia de Zahar

Jornal do Brasil MARIANA RODRIGUES TAVARES*

A sensação de efemeridade do tempo presente é em larga medida provocada pela disseminação das tecnologias digitais. Afirmava o filósofo Zygmunt Bauman que “vivemos em tempos líquidos nos quais nada é feito para durar”. Nesse sentido, a produção cultural nos tempos contemporâneos cada vez mais tem sido organizada de forma imagética, digital, algo que contraria o papel da escrita que sempre teve por missão, tal como aponta o historiador Roger Chartier, “conjurar a fatalidade da perda”.

Entretanto mesmo em meio à profusão tecnológica, observa mais uma vez Chartier, que o passado impresso não pode ser substituído pelo futuro ou pelo presente digital. Assim sendo, é necessário que o livro em seu formato tradicional seja preservado nas escolas. Por isso, é fundamental manter e proteger as livrarias e as bibliotecas.

E é com esse espírito de preservação que escrevo estas linhas. Por meio delas gostaria de deixar aqui um manifesto em defesa das bibliotecas e das livrarias que bravamente “resistem” na cidade do Rio de Janeiro. Para tanto, destaco uma delas que me parece contrariar o estilo atual das megastores livrescas.

Já afirmava o poeta Drummond que “no meio do caminho havia uma pedra”, e isto não é pouco verdadeiro, mas aqueles que costumam flanar pelo centro da cidade do Rio de Janeiro também se deparam com outras coisas. Uma delas é uma pequena livraria, de aparência tímida, cujo nome remonta ao espaço sideral, a Livraria Galáxia. Situada na Rua México, no coração da cidade carioca, a poucos metros das duas principais instituições das letras do país, isto é, a Biblioteca Nacional e a Academia Brasileira de Letras, poucos devem saber que aquelas vitrines guardam histórias memoráveis do mercado editorial brasileiro.

Quem entra na Galáxia se depara, não apenas, com uma vasta quantidade de livros, mas com uma prática de leitura bem comum nos séculos 19 e 20: a conversa com o livreiro. Além das indicações das mais recentes edições, o livreiro da Galáxia guarda em sua história a presença de um dos mais importantes nomes do universo editorial brasileiro dos anos 1950-60: o do editor Jorge Zahar.

A trajetória de Zahar inicia-se na década de 1930 quando de sua ação junto à distribuidora de livros também localizada no centro da cidade do Rio de Janeiro. No entanto a consagração somente viera com a difusão dos catálogos da antiga Zahar Editores e de Jorge Zahar editor que reinventou a publicação das ciências sociais no Brasil. Nomes como Freud, Lacan, Sartre, Hobsbawm receberam o selo de edição pela Zahar, podendo este ser considerado um editor atento às demandas advindas dos cursos universitários no Brasil das décadas de 1950-70. Nos dias atuais, a quem possa interessar, o livreiro da Galáxia, descendente do famoso editor, tem um tino aguçado para os assuntos do livro e oferta aos seus clientes excelentes conversas sobre as edições de Zahar, além é claro, das notícias livrescas que despertam o interesse de todo leitor.

Hoje, felizmente, já existem estudos que se dedicam a recuperar esses capítulos esquecidos do mercado editorial brasileiro. Para efeito, cito dois deles. Um é a biografia do editor e escritor Paulo Roberto Pires, a respeito do editor Jorge Zahar, intitulada “A marca do Z — A vida e os tempos do editor Jorge Zahar”. O outro é a mais recente tese de doutorado defendida pelo professor Fabiano Cataldo, intitulada “Editar livros, sonho de livreiros: os Zahar e o livro no Brasil” (1940-1970). Ambos são contribuições de suma importância para todos os amantes dos livros e também para aqueles que pretendem conhecer a história da cultura do impresso brasileiro. Sendo assim, reitero meu manifesto de antes. Manifesto, não só, pela preservação das livrarias e bibliotecas, mas pela defesa do livro. Livro, objeto cultural este, capaz de provocar em seus amantes, algo que Clarice Lispector chamava de felicidade clandestina.

* Especialista em História do livro no Brasil; doutoranda em História Social pela UFF



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