Centúria na favela

Malgrado o título possa sugerir, com a licença de Mestre Aldir, um pagode em Cocotá, lamento informar que nada de divertido vos posso oferecer, ao prenunciar-se um desastre.

Recorrendo aos clássicos da História Urbana – Munford sobretudo – cidades surgem no planeta como verdadeiros instrumentos de opressão. Criam-se chefes supremos, clero, soldadesca e escravidão: um verdadeiro circo dos horrores que faz sucumbir a simpática civilização neolítica, que em verdade desaparece pela impossibilidade de manter sua forma de crescimento que, a exemplo da divisão celular, era a formação de novas aldeias. Mas o território, para tanto, se tornara escasso.

A cidade, que para nós é algo natural, nem sempre existiu. Seus admiradores consideram que o ocorrido há uns seis mil anos, por ali onde hoje em dia se chama Iraque, mas que já teve mais nomes do que o DEM, chama-se Revolução Urbana.

Já na Roma Imperial, cidades, criadas aos montes, eram a garantia do território conquistado e até suas ruas eram dimensionadas para atender à formação militar: contubérnios formam centúrias (olha elas aí) que formam legiões.

E quando Paris é festa, saiba que Haussman, que abriu bulevares para delícia dos “flâneurs”, viabilizou o fim dos bairros de ruas estreitas, onde se originara a Comuna de Paris, reprimida com implausível violência.

No Rio, afirma-se que as obras de Pereira Passos, que fizeram nascer, a partir de um artigo de Coelho Neto, a expressão Cidade Maravilhosa, serviu principalmente para atropelar cortiços e desalojar pobres.

“O que dá pra rir dá pra chorar”.

E se achamos que os autores carregam nas tintas ou sofrem da síndrome de conspiração, urge reconsiderar, ao se saber: “O plano habitacional do estado vai garantir que as comunidades tenham infraestrutura viária que possa facilitar a ação policial”.

Se isso vos lembra Maquiavel ao “Príncipe”, afirmo-vos que é atualíssimo e que no próximo domingo pode se tornar real, caso seja eleito o candidato, o insuspeitado Wilson Witzel, cujo Plano de Governo destila essa afirmativa, ao tratar da Segurança Pública.

Comunidade, sabemos, é eufemismo para se referir a favela, cujo traçado nos remete às ocupações medievais: vias estreitas e tortuosas, densamente habitadas, surgidas sem desenho prévio, que seriam impróprias para que desfilassem contubérnios, centúrias ou simplesmente o Caveirão.

De toda forma, o Plano WW de governar, embora muito mais técnico que o de Bolsonaro, que, como vimos na semana passada, é tão somente uma peça ruim de marketing, ainda assim, padece de incoerência: o capítulo dedicado a habitação não cita a diretriz acima indicada pelo Plano de Segurança, acrescentando que abandonará as políticas de remoção.

Contrariamente, para que surja a infraestrutura viária preconizada, será necessário expressivo remanejamento de moradores, muito superior ao realizado por qualquer dos planos de urbanização até aqui tentados. O incensado Favela Bairro, por exemplo, limitava a 7%, salvo engano, os domicílios passíveis de remanejamento. O Cimento Social, de Crivella, nem considera, passa ao largo.

Outrossim, WW afirma que se deve “repensar a ocupação territorial do estado”, o que poderia resultar na “expansão urbana em áreas como o entorno do Arco Metropolitano”, o que, em um quadro de retração urbana, como a do Rio de Janeiro, expansão, como política territorial, é inconcebível.

Embora tendência não seja destino, nem pesquisa dispense eleição, em face dos planos dos candidatos que delas emergem, anuncia-se um desastre, ao se reduzir uma cidade, estado ou país à lógica e medida de contubérnios.

Porém, quando os bárbaros se cansaram de serem mantidos além das muralhas do império, erguidas como os arcos metropolitanos...

Roma ruiu.

* Arquiteto, Urbanista DSc