Roteiro do eleitor de extrema direita

O eleitor brasileiro de extrema direita acordou naquele domingo da eleição, que já parece tão distante, deu um beijo nos filhos ainda na cama e tomou café da manhã olhando o WhatsApp. Tinha recebido uma imagem absurda, na noite anterior, com uma fala atribuída ao Haddad dizendo que todas as crianças a partir de 5 anos de idade passam a ser propriedade do Estado. Logo compartilhou a notícia falsa com todos os seus contatos, sem verificar a informação.

Para ir à igreja, cristã, colocou o tênis, vestiu uma calça jeans e uma camiseta branca estampada com o rosto do candidato do Partido Social Liberal à Presidência da República, homem que é a favor da tortura e do assassinato e rejeita a democracia.

Antes de sair de casa, viu na TV que um homem foi morto pela Polícia Militar poucas horas atrás. Mais um negro morador de favela assassinado pelo Estado. Temente a Deus, mas sem medo de julgar o próximo, o eleitor comenta nas redes sociais que talvez o homem fuzilado tivesse envolvimento com o tráfico. Sendo assim, menos um bandido no mundo. Além disso, pensa que, na guerra, inocentes morrem até a vitória completa, desde que os mortos sejam os favelados.

“Como combater dez bandidos armados com fuzis apontados pra você?”, na porta da igreja o radical perguntou babando, com sangue nos olhos, a um amigo que declarou voto diferente. A resposta é óbvia, a lei permite atirar e matar quando há situação iminente de risco de vida. A questão que a extrema direita não discute é quais medidas podem ser criadas para impedir que bandidos coloquem as mãos em armas. Medidas de inteligência não atraem votos de extrema direita, só o ódio.

Encerrou a conversa rapidamente, a missa estava começando, e terminou se despedindo, defendendo a volta do regime militar, “pela ordem e pela moral da nação”. Mulheres grávidas, crianças e todo tipo de gente foram arrancados de casa e depois torturados, física e psicologicamente. O Congresso foi fechado, o habeas corpus foi suspenso, atentados terroristas eram praticados tanto pela direita quanto pela esquerda. Não houve ordem nem moral após o golpe de 64.

Diante da urna, o eleitor desejou um Brasil melhor. Onde a empresa que ele abriu recentemente dê certo e ele enriqueça para gerar empregos. Alega que geraria ainda mais se a reforma trabalhista não tivesse sido tão suave. Quando digitou o número do candidato, não pensou no bem-estar popular ou no desenvolvimento geral da cidadania. Porque rejeita a história de escravidão, pobreza e dor que constituiu o país. Rejeita, inclusive, qualquer estatística atual sobre miséria e violência. O número de jovens negros assassinados é três vezes maior do que de jovens brancos, mas isso tudo é “mimimi”.

De novo em casa, sem arrependimentos, viu no noticiário noturno que não era uma arma na mão do favelado, como a polícia pensou, era um guarda-chuva.

* Escritor gonçalense