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De sexta para segunda

Jornal do Brasil EMIR SADER*

Escrever na sexta-feira para o artigo sair na segunda, quando todos ja conhecerão o resultado do primeiro turno das eleições. Só cabe especular sobre o que terá sido, para vocês que leem, sobre o que será, para eu que escrevo.

A melhor expectativa é que a decisão tenha ficado para o segundo turno, quando as duas perspectivas com mais apoio podem aparecer mais claramente para todos. Em que quem ganha consegue mais apoio.

Além de que teremos debates entre os dois que cheguem ao segundo turno, o que não foi possível no primeiro. É muito frustrante para a população não conhecer as posições de um dos candidatos. É certo que se conhecem muitas declarações de um dos candidatos, muitas delas assustadoras. Mas pelo menos ele teria possibilidade de confirmar se continua pensando aquilo, justificar ou se retratar.

Seria possível discutir que planos econômicos têm os dois candidatos, como pretendem fazer o Brasil sair da pior recessão que vivemos em muito tempo. Saber qual deles pretende manter a política econômica atual e qual pretende substituir e por que alternativa.

Seria a possibilidade de saber o que cada um pretende fazer com o congelamento dos recursos para as políticas sociais, se pretendem mantê-lo, privilegiando o equilíbrio das contas públicas, ou se considera essencial superar essa medida. Poderíamos saber qual dos candidatos pretende, se for eleito, propor que o Congresso retome a reforma da Previdência tal qual o governo atual mandou para discussão ou qual deles considera que ela é inapropriada.

Um segundo turno permitiria discutir a questão da democracia, qual o valor que dão a ela, qual deles pode ter saudades da ditadura. Qual deles propõe a liberação da compra de armas e qual se opõe a ela.

Debates entre os dois candidatos permitiriam saber que função atribuem ao Estado: se a continuidade do Estado mínimo atual, com a centralidade do mercado. Ou se o Estado voltaria a ter um papel ativo na indução do crescimento econômico e na garantia dos direitos das pessoas.

Poderíamos saber com clareza o que pretendem fazer com as políticas sociais. Se consideram que o Bolsa Família, por exemplo, deveria ser extinto ou se, ao contrário, deveria ser retomado e ampliado. Se as políticas sociais voltariam a ser prioritárias ou secundárias e dispensáveis.

Uma discussão sobre o lugar do Brasil no mundo permitiria saber que tipo de política externa cada um pretende colocar em prática, caso seja eleito. Qual a importância dos processos de integração regional e qual o peso das relações econômicas com os EUA.

A população poderia ter clareza sobre as políticas de saúde – um tema prioritário para a população, segundo as pesquisas: se o SUS seria fortalecido ou se, como no governo atual, se promoveriam os planos privados de saúde. Se o Mais Médicos seria fortalecido ou se tomaria decisões de enfraquecer esse programa.

Seriam três semanas de intenso debate, de socialização da informação sobre os principais problemas brasileiros, em que se conheceria melhor o caráter, os valores e a personalidade de cada um dos dois candidatos. Que papel atribuem à violência e quanto prezam a convivência pacífica entre todos. Quanto cada um valoriza o pluralismo e tolerância, quanto condenam ou praticam a intolerância.

Tudo isso será possível se a eleição não tiver sido decidida no primeiro turno. Se o país terá tempo para refletir mais e melhor. Tomara.

* Sociólogo



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