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Gilead pode ser aqui. E agora

Jornal do Brasil GILBERTO SCOFIELD JR.

Há semanas estou obcecado com a série “O conto da Aia”. A segunda temporada foi exibida no canal da Paramount, mas eu acompanho no NOW. E fuço a internet. E já comprei o livro que deu origem à série, escrito por Margareth Atwood. E vejo todas as entrevistas com Atwood e Bruce Miller, o genial criador da série (os dois dão muitos pitacos no roteiro até hoje). “O conto da Aia” (ou “The handmaid’s tale”, no original) descreve um presente distópico que, de longe, parece um cenário de sonho – comida orgânica, energia limpa, o fim da ditadura do consumo, etc. -, mas de perto, mostra-se perturbador e opressor. Os EUA sucumbem a uma teocracia patriarcal e misógina, batizada de Gilead, onde as pessoas são divididas em castas de acordo com o que podem oferecer ao Estado. A elite manda abusivamente e oprime descaradamente. Aos menos favorecidos não resta nem o consolo do próprio nome. A protagonista June (ou Offred), interpretada magistralmente por Elisabeth Moss, de “Mad men”, é a aia do título. Por conta das mudanças climáticas, que acabaram afetando a fertilidade de homens e mulheres, as aias servem para parir os filhos que a elite não consegue ter. Em Gilead, se alguém se rebela ou ousa sair da ordem estabelecida – aquilo que a elite considera correto perante o Estado e perante Deus -, são simplesmente eliminadas e enforcadas para servir de exemplo. É uma série triste, desalentadora, sufocante, revoltante, mas extremamente educativa.

O maior ensinamento que “O conto da Aia” nos passa é que não há direitos garantidos sem uma vigilância permanente de toda uma população. E um importante passo a passo sobre como a opressão vai aos poucos se transformando em realidade, especialmente num momento em que tantas vozes encontraram o seu lugar de fala, finalmente: mulheres, negros, LGBTs, portadores de necessidades especiais, ativistas de direitos humanos, ambientais, defensores de animais. Quando tudo que é considerado normal vai sendo exposto como tirânico, menosprezador, redutor, debochado, sádico ou imoral, a reação vem logo. O clube dos favorecidos de sempre busca “mimimizar” a coisa ou defender a tese de que um mundo onde todo mundo tem voz é um mundo chato de politicamente corretos, como se o politicamente correto, como eu já disse aqui, não fosse um avanço civilizatório.

Diante do grande apoio de gente que eu considerava esclarecida a um sujeito fascista que simboliza tudo que há de mais abjeto num ser humano, “O conto da Aia” é mais que uma série. É praticamente um aviso dos males do autoritarismo, do patriarcalismo, da religiosidade fundamentalista e da opressão. Não é à toa que vivemos a era das notícias falsas. Por uma razão simples, a verdade é inimiga da opressão. E a primeira vítima da opressão é a imprensa. Os ataques à imprensa (a séria, por favor) não são novidades, mas esta campanha foi maciça na tentativa de desacreditar os fatos. Por trás das notícias falsas está uma tentativa de criar uma nova História ou uma nova narrativa sobre fatos comprovados. Eis outra forma de se caminhar para um regime opressor: reescrevendo a História e reinterpretando as falas. Não há como relativizar uma declaração como “o erro da ditadura militar foi apenas ter torturado e não matado”. Ou “as minorias precisam se curvar às maiorias”. Tais declarações não são lapsos. São a voz da opressão. As aias são definidas pela elite de Gilead como “voluntárias” na cessão de seus úteros por vontade de Deus. Não são. Elas são escravas. Ou seja, é preciso dar nomes às coisas e às circunstâncias. E restabelecer a verdade dos fatos.

Gilead segue uma lógica hierarquizada extremamente parecida com a hierarquia militar. Ordens não são questionadas, são para ser cumpridas cegamente. O questionamento das ações não é permitido, mais uma característica da opressão. Numa estratégia militar durante uma guerra, faz todo o sentido. Quando se trata de dizer com quem as pessoas devem se deitar ou casar, bem, temos aí uma clara extrapolação do poder. Aliás, uma característica de nossos políticos da bancada BBB, que querem o estado mínimo na economia, mas adoram legislar sobre corpos alheios. Nada se aceita sem o devido questionamento. Nada.

A certa altura da série, um estranho abriga June quando ela tenta cruzar a fronteira com o Canadá. Ela pergunta quem são aquelas pessoas que a ajudam. E ele responde: “Alguém corajoso. Ou estúpido. Ou ambos. Há muitos ambos”. Então cai a ficha da protagonista: não se fica calado diante das injustiças, das covardias, da violência, da opressão. Uma elite acuada como a nossa é capaz de qualquer coisa. O sujeito que colocou a cabeça no vagão de mulheres do metrô do Rio e gritou: “E aí, suas vadias? Essa moleza vai acabar!”. Ou os homens que gritaram no metrô de São Paulo: “Ô bicharada, toma cuidado! O Bolsonaro vai matar veado!” Essa gente não é apenas antipetista. Seria um reducionismo tolo. Essa gente é desumana e acha realmente que mulher merece ser estuprada e gays devem morrer. Não é a hora de ficar calado vendo isso acontecer. Ajude, ampare, denuncie.

Assim como em Gilead, foi a passividade cúmplice, o preconceito explícito e a reação patriarcal e religiosa da elite aos avanços sociais que levaram ao mundo da opressão e do fascismo. É exatamente o que se vê aqui e agora no Brasil. E como não se bate palma para maluco, é preciso gritar alto hoje que #elenão, #elenunca.



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