Jornal do Brasil

País - Artigo

O desafio de pacificar um país que sai das trincheiras eleitorais esgarçado

Jornal do Brasil GILBERTO SCOFIELD JR.

Escrito em 2006 pelo estudioso de mídias Henry Jenkins - portanto, antes da explosão das redes sociais como conhecemos -, “Cultura da convergência” permanece um livro espantosamente atual e, ao mesmo tempo, um tanto idealista. Relendo o livro por conta de uma pesquisa, dou de cara com discussões sobre um vídeo feito como paródia do programa “O aprendiz” em que o ainda reality showman Donald Trump “demitia” George W. Bush. O democrata marqueteiro Garrett LoPorto disse que a essência do marketing viral é levar a ideia certa às mãos certas na hora certa. ”O objetivo era circular essas ideias o mais amplamente possível. E, o mais importante, o conteúdo tinha que ser consistente com aquilo em que as pessoas mais ou menos já acreditavam sobre o mundo. Encontrar pessoas que compartilham suas convicções é fácil, pois tendemos a procurar, na web, comunidades com ideias afins. Cada pessoa que passava o vídeo adiante estava reafirmando seu compromisso com essas convicções e dando um passo adiante em direção à ação política” - ir a determinado site e clicar na newsletter. “Repita o processo por um número suficiente de vezes, com um número suficiente de pessoas”, afirmou LoPorto, “e você consegue formar um movimento e começar a ‘empurrar’ delicadamente a estrutura de convicções vigente para a sua direção”.
Incrivelmente atual como estratégia de deslocamento de discurso e polarização, não? Os mesmos conteúdos de paródia – memes engraçados, vídeos editados para fazer rir ou desmoralizar, imagens photoshopadas, fake news descaradas, etc. – permitidas pelas novas ferramentas de produção de conteúdo e seus canais alternativos digitais são celebrados como um “rompimento de barreiras de entrada no mercado de ideias” e no debate político. Diz ele:
“Essas mudanças colocam recursos para o ativismo e a crítica social nas mãos de cidadãos comuns, recursos que já foram de domínio exclusivo dos candidatos, dos partidos e dos meios de comunicação de massa. Esses cidadãos cada vez mais se voltam para a paródia como uma prática retórica que lhes permite expressar o ceticismo em relação à “política de sempre”, a escapar da linguagem excludente por meio da qual são conduzidas as discussões sobre política pública e encontrar uma linguagem comum de imagens emprestadas que mobilizam o que eles conhecem como consumidores, para refletir sobre o processo político. Essas práticas tornam indefinidas as fronteiras entre produtor e consumidor, entre consumidores e cidadãos, entre o comercial e o amador, e entre educação, ativismo e entretenimento, à medida que os grupos com motivações contraditórias utilizam a paródia para servir aos seus próprios fins”.
Mas há um indisfarçável tom de “democratização do debate” que a emergência das redes sociais e das bolhas tratou de sepultar como conceito. Se há algo que não existe hoje nas redes socais é debate político. Há uma gritaria de todos os lados na defesa de pontos de vista comuns e contra a barbárie pregada por um grupo de extrema-direita. E é o que temos. Chegamos às eleições polarizados como nunca em torno não de programas de governo, mas de dois grupos. Um que não aceita as ideias que flertam com o fascismo e o autoritarismo e certa predisposição ao discurso antissistema, conservador, pouco liberal e nada nacionalista de Jair Bolsonaro e sua networking digital (segundo o estudo de Pablo Ortellado e Márcio Moretto Ribeiro do Monitor do Debate Político no meio Digital da USP). E outro que reúne antipetistas indignados com a volta do partido ao poder por um conjunto de razões que vão da ojeriza à corrupção mastodôntica aperfeiçoada (não criada) nos governos de Lula e Dilma até a defesa ferrenha do status quo de quem tem saudades de uma época em que gente de chinelo não andava em aeroportos.
Eis o grande desafio do novo presidente: pacificar um país retalhado por uma mistura de cansaço do establishment político, cansaço da desigualdade e seus esquemas de perpetuação, cansaço da incompetência administrativa de governantes, cansaço da Grande Mídia que se vende como isenta, mas é escandalosamente politizada/partidária e uma reação forte à tomada de consciência de grupos e classes sociais historicamente marginalizados (e aqui eu não vejo recuo nem de um lado nem de outro).
Tanto Bolsonaro quanto Haddad terão imensa dificuldade de realizar essa tarefa de conciliação porque o grupo perdedor não sossegará enquanto não obliterar o outro. A meta será claramente a desestabilização, o desmascaramento, a demonização do outro. Coisa que já vem acontecendo, aliás, e que só piorou com a certeza de que um governo Bolsonaro será um período de trevas e retrocesso em todos os sentidos para o país. Quem viu a imagem do sujeito torturado com um saco amarrado na cabeça no Instagram de Carlos Bolsonaro semana passada sabe bem disso. Ou deveria.



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