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Einstein, Picasso e a democracia

Jornal do Brasil THELMA LOPES*

Pablo Picasso e Albert Einstein foram contemporâneos. Ambos são responsáveis por rupturas profundas em seus campos de atuação. Fruto e expressão de um mesmo tempo, suas obras se conectam. Enquanto Einstein, insatisfeito com a noção Newtoniana de espaço, reformula conceitos na física e concebe a “Teoria da Relatividade”, em 1905; Picasso, estimulado pelo debate entre abstração e representação, cria o “Les demoiselles d´Avignon”, no ano de 1907, explodindo o espaço pictórico e criando bases para um novo gênero: o cubismo – caracterizado pela utilização de formas e volumes geométricos, e fragmentação de planos.
A pintura chocou os críticos. Menos por retratar prostitutas espanholas ou pela inspiração em feições africanas, e mais pela técnica audaciosa e revolucionária para os padrões da época. Picasso, em conjunto com pintores como Georges Braques e Paul Cézanne, rompeu com normas estéticas que primavam pela busca de retratar a natureza de forma realista. Como uma foto. Ao contrário, o pintor espanhol buscou representar objetos com todas as suas partes dissecadas em plano único, multiplicando dimensões e ângulos. A perspectiva tridimensional da Renascença fora substituída. É como se pudessem ser lançados, ao mesmo tempo, diferentes pontos de vista sobre as imagens.
Após a publicação do primeiro artigo de Einstein sobre a relatividade, iniciou-se o aparecimento de termos sugestivos ligados aos escritos do cientista em estudos sobre arte cubista, tais como simultaneidade, quarta dimensão ou geometria não-euclidiana. Embora o próprio Einstein tenha negado a relação explícita entre suas teorias e o cubismo, a discussão sobre espaço e tempo deflagrada no início do século 20 se deu tanto no âmbito da física quanto das artes plásticas e constituiu mudança fundamental de panorama que afetava os dois campos. E também o pensamento humano. Em seus legados, Picasso nos diz que é preciso enxergar por múltiplos ângulos; Einstein nos fala da importância de relativizar.
Estamos há poucos dias das eleições que definirão, entre outros cargos públicos, o de presidente do Brasil, e o país é palco de acirradas discussões, nas quais, frequentemente, palavras inflamadas têm tomado o lugar da sensatez. O lado benéfico é que talvez a política nunca tenha sido tão debatida e é fundamental para a saúde democrática que os rumos da nação estejam na boca de tantos cidadãos. Seja presencialmente ou pelas redes sociais. Contudo, o debate sem o devido embasamento, capacidade de escuta e relativização, torna-se campo fértil para interpretações superficiais, equivocadas, polarizadas e radicais. Em uma palavra: cegas.
Em termos históricos, a democracia brasileira é jovem. Trata-se de experiência recente. É necessário, e deseja-se, que amadureça para o bem e equilíbrio de toda a população. De forma ampla e indistinta. Viver democraticamente é, ainda, um longo processo de aprendizado para países como o Brasil. E nesse processo os chavões devem ser dispensados: “Brasileiro não sabe votar”; “Político é tudo igual” ou “Cada povo tem os governantes que merece”. São frases vazias. Em nada contribuem para o entendimento lúcido da realidade e, principalmente, alimentam a errônea postura de que a sociedade atual não é passível de transformação.
Diferentemente do que muitos querem fazer crer, seremos capazes de aprender a discutir com razoabilidade, a votar com consciência e a eleger governantes à altura de um povo trabalhador, criativo e plural. Para tanto, a condição primeira e fundamental é que o Estado Democrático seja mantido. Que possamos garantir o direito de elaborar e expressar opiniões diferentes e que na multiplicidade de pontos de vista e capacidade de relativização, encontremos em comum o desejo de um mundo mais justo, sensível e próspero para todos. Precisamos de tempo e espaço para mais mentes abertas.

* Artista profissional, mestre em Teatro e doutora em Ciências



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