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Os economistas

Jornal do Brasil ANDRÉ GUSTAVO STUMPF*

Na Primeira Guerra Mundial, o primeiro-ministro francês, Georges Clemenceau, percebeu que o comando do Exército sacrificava milhares de soldados em ataques frontais contra as trincheiras alemãs sem qualquer resultado positivo. Ele promoveu mudanças e cometeu a frase que entrou para a história: “A guerra é importante demais para ser entregue aos militares”. A partir daí, as táticas se tornaram mais eficientes e a França venceu.
No Brasil, os economistas costumam alardear dispor de poderes especiais para solucionar os grandes problemas nacionais. Prometem a salvação eterna. Raramente entregam. Dílson Funaro, já falecido, exerceu a função de ministro da Fazenda entre agosto de 1985 e abril de 1987. Implantou o plano de estabilização financeira, chamado de Plano Cruzado, que naufragou um ano depois. Foi mais longe: assinou a moratória unilateral brasileira. O Brasil suspendeu os pagamentos de sua dívida externa. O Banco do Brasil, no exterior, ficou sem recursos. O credito secou.
Depois de destruir a credibilidade brasileira fora do país, e sob inflação elevadíssima, o então presidente Sarney escolheu o economista Maílson da Nóbrega para o Ministério a Fazenda. O país já tinha passado pela administração de Bresser Pereira, que também cometeu um plano de recuperação, que ganhou seu nome, Plano Bresser. Como sempre, deu tudo errado.
O ministro Maílson da Nóbrega assinou, afinal, um acordo com o Fundo Monetário Internacional. Ele havia declarado que faria umapolítica sem soluções miraculosas. No entanto, a inflação acumulada alcançou 1.037,53%. Por causa disso, desabou sobre a cabeça dos brasileiros mais um plano heterodoxo, o Plano Verão. Também não deu certo.
O então presidente Fernando Collor alcançou o auge. Nomeou a economista Zélia Cardoso de Mello, sua prima, para o Ministério da Fazenda. No primeiro dia de governo, feriado bancário, o governo decretou o confisco de poupança de todos os brasileiros. Cada cidadão só podia dispor de cinquenta cruzeiros. A inflação depois de tantos planos estava na incrível marca de 1.800% ao ano. O confisco segurou a inflação por algum tempo, mas começou a vazar por todos os lados. O excepcional desgaste do governo auxiliou bastante na evolução do pedido de impeachment do presidente. O PT apoiou a decisão. Não enxergou nela nenhum golpe.
Zélia Cardoso de Mello, ainda no governo, viveu explosivo namoro com Bernardo Cabral, então ministro da Justiça. Estavam em Paris quando ele alegou que precisava tratar de dentes no Rio de Janeiro. Viajou e não mais voltou. Depois, a ex-ministra se apaixonou por Chico Anysio, o humorista. Os dois se casaram, tiveram dois filhos. Veio a separação. Zélia vive com o casal de filhos, de 25 e 23 anos, confortavelmente em Nova York. Está muito bem de vida.
No governo Itamar Franco, que sucedeu Fernando Collor, o então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, reuniu um conjunto de economistas que criou o Plano Real, o mais bem sucedido até hoje. A dívida externa sumiu. Apareceu a dívida interna, que torna os juros elevadíssimos no Brasil. Os bancos emprestam para o governo com extraordinárias taxas de interesse.
Entre julho de 1965 e junho de 1994, a inflação no Brasil atingiu 1,1 quatrilhão por cento. Inflação de 16 dígitos, em três décadas. Ou precisamente, um IGP-DI de 1.142.332.741.811.850%. Alguns dos envolvidos nessa história de planos destinados à salvação nacional deixaram o governo e se tornaram milionários. Economistas são bons de conversa e de encantar o público. A prática desmente a propalada genialidade. No Brasil, a frase de Clemanceau seria traduzida como a economia é assunto muito sério para ser entregue aos economistas. Melhor votar no candidato que apresentar o projeto mais palatável. O resto é ficção.

* Jornalista



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