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Uma falsa generosidade

Jornal do Brasil ANDRÉ MAGNELLI*

“De boas intenções, o inferno está cheio”, diz o ditado popular. Na lista dos danados de boa consciência, não faltariam nomes de “generosos”. Se defendemos, em artigos anteriores, uma “revolução do dom”, estejamos sempre alertas. Pior do que um inferno cheio de boas intenções é uma terra dividida entre “generosos” e “endividados”.

Há um bom tempo foi escrito que em nossas sociedades “tudo que era sólido e estável se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado e os homens são obrigados finalmente a encarar sem ilusões a sua posição social e as suas relações com os outros homens”. Nessa passagem, Marx e Engels descreveram o modo como o capitalismo havia reduzido aos interesses tudo o que pertencia ao Antigo Regime: as virtudes do desinteresse; os sensos de honra; os laços de reciprocidade. Há neles uma crítica ao capitalismo, mas também um elogio por ter dissolvido as ilusões de interesses dissimulados em generosidades. Claro, é irônico ver como, anunciadores da desilusão, eles se deixaram iludir; contudo, aqui é assinalado um ponto crucial: apelar a belos valores pode servir para embelezar velhos grilhões. Quando se trata da defesa de uma lógica de dons, cabe-nos indagar: isso não seria apelar a ideais aristocratas quando urge defender liberdades e criticar injustiças?

Ora, o tempo das ingenuidades terminou e o elogio do dom tem de ser um apelo à maioridade. Um de nossos objetivos é o de construir uma imunidade contra formas de “Realpolitik da falsa generosidade”, contra usos para explorar, manipular e dominar gerando conformismo de subalternos. Sabe-se que o conhecimento de economia serve não apenas para agir no mercado, como também para perceber disfunções e engodos; com isso, quem estuda economia se torna menos vulnerável a soluções mágicas. O mesmo ocorre no dom: quando adquirimos conhecimento sobre como operam os dons, não apenas nos tornamos mais generosos, como também nos imunizamos contra seus maus usos. Sabemos como é comum gerar dominação dissimulando reciprocidade. Exemplos abundam: a astúcia dos paternalismos, clientelismos e patrimonialismos está em tecer legitimação pela “liberalidade” de poderosos, gerando fidelidade em nome de gratidões e dívidas morais; a arte de semiescravizar utiliza-se de reciprocidade para gerar dívidas impagáveis; e a gestão empresarial estimula bem os funcionários a se desviarem dos seus interesses para investirem suas vidas nas empresas e dedicarem a elas um excedente de trabalho gratuito.

Mas não se pode exigir generosidade d’outrem e, para que haja dom, não basta intitular-se generoso. Antes de tudo, não podemos aceitar, eticamente, que exista um dom autêntico quando a relação entre as partes está fundada em manipulação consciente ou inconsciente. Temos por princípio que um dom somente pode ser feito por vontade própria e em relativa liberdade (muito embora isso possa ocorrer por um sentimento de obrigação). Para evitar que os dons reforcem particularismos contrários a conquistas universalistas, assumamos que todo indivíduo tem o direito inalienável de defender seu próprio interesse e que, antes de tudo, existe um Estado Democrático de Direito e uma cidadania fundada em uma “igual liberdade”. Portanto, não existe dom autêntico quando ele funciona por uma relação assimétrica entre dominantes e dominados; ou quando é realizado na ilegalidade, lesa direitos ou priva os envolvidos de autonomia. Não se está na liberdade de recusar a dar quando deve-se cumprir com a função legal à qual está incumbido ou se deve remunerar ao trabalho que lhe foi prestado.

Cabe ainda um último anticorpo imunizante. Da mesma forma que usos maliciosos são sempre existentes, é tentador defender um mau uso dos dons de forma bem intencionada. É quando nos deixamos levar por uma afetação aristocrática contra tudo o que é útil e instrumental. Quando isso ocorre, viramos reacionários; primeiro porque a purificação de qualquer utilitarismo somente seria realizável em uma sociedade de castas; segundo porque a recusa de lidar com problemas em torno da eficiência econômica, do planejamento estratégico e da organização de recursos escassos inviabilizaria qualquer política real. Precisamos de coisa bem diferente: de uma abundância de inovações organizacionais e instrumentais que potencializem iniciativas orientadas pela arte de dar.

* Doutor em Sociologia (Iesp-Uerj) e diretor do Ateliê de Humanidades



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