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O jogo das damas e as mulheres invisíveis

Jornal do Brasil THELMA LOPES*

Deveria causar estranheza que em pleno século 21 ainda tenhamos que discutir a igualdade entre mulheres e homens. Se a presença feminina é cada vez mais marcante no mercado de trabalho, nas universidades e em funções diretivas, muitas mulheres ainda são espancadas ou assassinadas. Além da violência explícita, há as mais sutis, nem por isso menos degradantes, que seguem veladas reafirmando o desequilíbrio entre os gêneros. Falas sexistas naturalizadas no cotidiano ou a cobrança de adaptação a padrões de beleza inatingíveis. Contudo, se o estranhamento não se justifica, um olhar para o passado, em diálogo com o presente, contribui para entender a condição atual.


Até meados do século 20, homicídios praticados por homens contra suas parceiras eram comumente interpretados como legítima defesa da honra. Na Constituição de 1988, passa a constar, formalmente, a igualdade de direitos e obrigações sem distinção de gêneros. Desde então, ações e estratégias de enfrentamento à violência vem sendo desenvolvidas, como a emblemática Lei Maria da Penha, promulgada em 2006. Voltada para a coibição das agressões domésticas e familiares contra a mulher, inclui a articulação ao Sistema Único de Saúde.


O dispositivo tornou ainda mais visível a história de uma cidadã, Maria da Penha Maia Fernandes, que após longos anos de agressões e consequências indeléveis, criou meios para ter e dar voz a tantas anônimas. A lei abarca relações homoafetivas entre duas mulheres e transexuais que se identificam com o gênero feminino. Apesar da modernização e avanços da legislação, a cultura machista está enraizada e se reflete nas decisões dos aplicadores das leis. Seja na estipulação de penas abrandadas ou em interpretações equivocadas que responsabilizam a vítima. Tal compreensão acarreta dupla injustiça ao penalizar quem deveria ser defendido.


O machismo é também histórico e se manifesta seja em qual for a área de atuação. Mulheres notáveis foram discriminadas, a despeito da importância de suas produções para a construção do conhecimento, como Sarah Bernhardt ou Marie Curie. Pouco mais de duas décadas separam o nascimento dessas personagens, no século 19, que se destacaram em uma sociedade excessivamente moralista e dominada pelo pensamento patriarcal.


Filha de cortesã, Sarah subverteu as expectativas e se transformou na dama lendária do teatro francês. Uma das primeiras atrizes a alcançar o status de celebridade mundial, cunhou seu nome no mundo das artes. Marie Curie, polonesa naturalizada francesa, nasceu em uma família que, atipicamente para os costumes da época, considerou que ela e as irmãs deveriam usufruir de educação acadêmica, não as limitando ao papel de meras esposas.


Entretanto, diferentemente do que ocorreu em seu lar, foi discriminada pela comunidade científica. Em Varsóvia não foi admitida na universidade simplesmente por ser mulher. Mais adiante ingressou na Universidade Paris-Sorbonne e, em 1903, obteve o Prêmio Nobel de Física. No entanto, nem todo brilhantismo a livrou do preconceito. Após enviuvar aos 38 anos, se apaixonou por um homem casado.


A grande pesquisadora, cujas descobertas trariam múltiplos benefícios para a humanidade, passou a ser achincalhada pelo povo e jornais sensacionalistas de Paris, que a acusavam de ter traído o renomado Pierre Curie e destruído o lar de uma família francesa. Acuada, colapsou e tentou o suicídio. Em meio à crise, obteve o segundo Prêmio Nobel.


Sarah também foi julgada. Por ser mulher, artista e de origem humilde. E respondeu à discriminação nos palcos. Frequentemente interpretava papéis masculinos, como Hamlet. Representar o príncipe da Dinamarca constituía componente de sua postura transgressora em relação aos papéis sociais permitidos à mulher de sua época. Uma crítica às regras austeras que regiam o comportamento feminino supostamente ideal.


O que une essas mulheres aparentemente tão distantes entre si? Elas resistiram e dialogaram com seu tempo alterando as relações de poder na direção de uma sociedade mais equilibrada. São mulheres que, ao inspirarem, dão voz a outras menos visíveis que elas. Reivindicar participação mais equitativa entre os gêneros dever ser uma preocupação de toda a sociedade e não apenas de um grupo específico. Isso porque a desigualdade é, antes de tudo, uma violação aos direitos humanos.

* Artista profissional, mestre em Teatro e doutora em Ciências



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