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Capitão Bolsonaro e o Riocentro

Jornal do Brasil ÁLVARO CALDAS*

O que temos em cena é uma aula viva da História do Brasil, de busca pela verdade do passado recente com suas projeções no futuro. Uma história de impunidade que não fechou, que ainda se faz presente neste momento pré-eleitoral que vivemos. Na noite de 30 de abril de 1981, o Riocentro foi palco de uma ação terrorista que poderia ter matado centenas de pessoas e mudado a história do país, interrompendo o processo de abertura política. Um público de 20 mil pessoas, em sua maioria jovem, lotava a casa para um show do Dia do Trabalho. No estacionamento, dois militares do Exército, dentro de um Puma, preparam explosivos para implodir a festa, com a missão de provocar uma chacina. A bomba explodiu no colo de um deles, frustrando o atentado.

Parece enredo de um thriller político, um filme de Costa-Gravas. Ficção e realidade se misturam. Estes são acontecimentos reais narrados pelo cineasta Silvio Da-Rin em seu documentário “Missão 115”, que entrou em cartaz esta semana. Entre 1964 e 1985, uma série de graves crimes contra a humanidade foram perpetrados por agentes do Estado brasileiro. Este, se consumado, o mais aterrador deles. Intercalando imagens de arquivos, depoimentos e entrevistas, inclusive com um ex-torturador participante da ação, o filme reconstitui a cena dramática do atentado e seus antecedentes, dando ao espectador a oportunidade de refletir sobre as consequências desse passado que ameaça o presente.

Se Da-Rin, ex-militante de uma organização de esquerda, tivesse optado por um filme de ficção em vez do documentário, o roteiro seria diferente. O capitão Jair Bolsonaro poderia ser escalado para fazer um dos personagens centrais, ocupando o lugar do então capitão e hoje coronel Wilson Machado dentro daquele Puma destroçado pela bomba. O capitão-candidato anda com o dedo no gatilho, defende a tortura e os assassinatos e tem as mesmas ideias dos militares escalados para o atentado. O outro, o sargento Guilherme Pereira do Rosário, que manuseava o explosivo, teve o abdome estraçalhado e morreu no local.

Detalhes do show exibidos pelo documentário mostram momentos de apoteose em que a cantora Simone canta “Pra não dizer que não falei de flores”, de Geraldo Vandré, e Gonzagão, o homenageado da noite, levanta o público com a sua “Asa Branca”. Do lado de fora, o terror finalizava os preparativos para a chacina. Os dois militares, que atuavam a serviço do DOI-Codi e do SNI, (Serviço Nacional de Informações), sob o comando do coronel Freddie Perdigão, nunca foram julgados. O capitão Wilson, atordoado, mas ileso, foi retirado de cena por seus cúmplices, protegido e promovido. Hoje, é professor de uma instituição do Exército, em Brasília.

“Missão 115”, codinome da operação terrorista, recupera as imagens da grande farsa montada para proteger os criminosos. A entrevista em que o coronel Job Lorena de Santana, que presidiu o IPM aberto pelo Exército, conclui suas investigações declarando a inocência do coronel Wilson e do sargento Rosário, que teriam sido “vítimas de terroristas de organizações de esquerda”. Na entrevista não foram permitidas perguntas. Cena grotesca, só possível numa ditadura, cujos laços se estendem até hoje.

Neste momento em que a Lei de Anistia completa 39 anos, fica evidente a necessidade de sua revisão. Ao longo dessas quatro décadas, prevalece nos tribunais a interpretação de que as graves violações de direitos humanos e crimes cometidos por agentes da ditatura foram anistiados. O que é incompatível com as normas internacionais, que os considera crimes contra a humanidade, portanto imprescritíveis e não anistiáveis.

O documentário de Da-Rin extrai com refinada habilidade o que há de mais absurdo nessas situações reais, criando uma espécie de comoção no espectador. Daí sua transposição natural para um filme de ficção, com personagens da cena brasileira atual, mantendo as sensações desses momentos tensos e vertiginosos. E desvendando o que está encoberto por uma memória traumatizada. Um thriller político, de crimes que ficaram sem castigo, como os do premiado cineasta grego Costa-Gravas, que fez “A Confissão”, “Estado de Sítio” e “Desaparecidos”, que se passa no Chile, durante a ditadura de Pinochet.

* Jornalista e escritor



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