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País

Os países que podem liderar mortes por Covid-19

(uma reflexão em torno do confinamento forçado)

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

Macaque in the trees
Copacabana, assim como Niterói, pode ser posta a prova, com alta concentração de idosos (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

A Itália, que tem 60 milhões de habitantes – é a 4ª maior população da Europa –, está sendo a grande surpresa no número de casos e mortes pelo novo coronavírus (Covid-19). O recorde de 475 mortes na 4ª feira, 18 de março, superior aos da China em um único dia, assusta e simula projeções para os países mais populosos do mundo. Dos praticamente 30 mil óbitos até ontem, o fato de que as mortes foram 70% concentradas na população idosa, com idade média de 79,5 anos, redobra as preocupações sobre as nações onde há muita gente com mais de 60 anos.

A China tem 1,4 bilhão de habitantes e teve menos de 3,5 mil mortes, até agora, declaradas oficialmente. Em toda a Europa, com o aumento exponencial de vítimas na Itália (só na cidade de Bergamo, no norte do país, 10 padres mais idosos morreram), haviam sido registradas 4,2 mil mortes até ontem. Na Índia, que tem apenas 50 milhões de habitantes a menos que a China e condições sanitárias bem piores, as mortes vão começar a ocorrer (até ontem eram menos de 200 casos notificados de contaminação).

Nos Estados Unidos, 3ª população mundial, com 328 milhões de habitantes, estudo do Imperial College de Londres estimou em até 2,2 milhões o risco de mortes por coronavírus, o que alarmou Donald Trump e o fez trocar o desdém para a ofensiva. Com o modo de vida sedentário reinante em Tio Sam, a reclusão em casa poderá ampliar o número de infectados e de mortes.

O 4º país mais populoso, a Indonésia, com 268 milhões (praticamente uma Coreia do Sul acima dos 211 milhões do Brasil, o 5º mais populoso) teve até agora menos de 400 registros. Mas pode haver subnotificação no país espalhado por 17 mil ilhas. A Coreia, que aplicou testes sucessivos na população – assim como Cingapura 5,6 milhões, menos que os 6,7 milhões do município do Rio de Janeiro – registrou 8,5 mil notificações, com menos de 100 mortes. A realização intensiva de testes ajudou a circunscrever o surto.

Mas o que dizer do Paquistão, que já tem 207 milhões de habitantes e breve vai tirar o Brasil do 5º lugar do podium das nações mais populosas? Ou da Nigéria, que tem 193 milhões de habitantes? Por enquanto, os registros são baixos. Ou de Bangladesh, que tem 166 milhões de habitantes. Na Ásia são ainda bem populosos o Japão (126 milhões), Filipinas (107 milhões) e Vietnã (95 milhões).

O foco de preocupações da Organização Mundial de Saúde toma como parâmetro o Irã. O país dos aiatolás é o 12º mais populoso do mundo (82,2 milhões, atrás da Alemanha, com 82,9 milhões, mas registra mais de 19 mil casos e mil mortes. Para situar o problema, a vizinha Turquia também tem população de 82 milhões de pessoas. No Oriente Médio, o Egito tem 98 milhões de habitantes, praticamente a mesma quantidade da Etiópia, no Oriente da África, e a República Democrática do Congo, na África Ocidental, com 87 milhões.

Na Europa, a Espanha, que tem 47 milhões, está pagando o preço (como a Itália) de ser um país muito aberto ao turismo e registra mais de 15 mil casos (bem mais que a França, que tem 20 milhões de habitantes a mais e registrava menos de 10 mil casos). O Reino Unido, que usou estratégia frouxa inicialmente e hoje fechou o metrô de Londres, tinha 2.700 registros para uma população de 66 milhões de habitantes, ainda bem longe dos 510 mil previstos pelo Imperial College de Londres.

Modos de enfrentar o problema

Para criar o modelo, que projetou até 2,2 milhões de casos nos EUA e 510 mil no Reino Unido, os cientistas do Imperial College, levando em conta a experiência de países como a China e a Coreia do Sul, mediram as três estratégias possíveis para enfrentar a pandemia:

- Supressão: romper as cadeias de transmissão, tratando de efetivamente deter a epidemia e reduzir os casos ao menor número possível, como fez a China;

- Mitigação: aceitar que não se pode deter o coronavírus e, portanto, diminuir sua propagação e tratar de evitar ao máximo casos de contágio que fariam colapsar o sistema público de saúde. Essa era a estratégia do governo britânico até esta segunda, 16;

- Inação: não fazer nada e deixar que o coronavírus ataque toda a população gerando imunidade coletiva.

Exemplos no Brasil

Para São Paulo, com 46 milhões de habitantes, a Coreia pode ser uma boa base de comparação. Vale lembrar que o estado tem o maior número absoluto de idosos no país. Santos é a cidade que atrai proporcionalmente mais idosos no estado, mas Ribeirão Preto, Campinas, Piracicaba, Americana e São José do Rio Preto são consideradas cidades que atraem idosos e aposentados.

O mesmo acontece no Sul do país. Porto Alegre com 1,2 milhões de habitantes é a cidade com maior participação de idosos (18%) na população total. E conta com cidades na região serrana que atraem idosos e aposentados, pela alta qualidade de vida, como Nova Petrópolis, Gramado e Canela.

No Estado do Rio de Janeiro há dois pontos que serão postos à prova, pela alta concentração de idosos. Niterói, a antiga capital do velho estado do Rio de Janeiro, que perdeu a função após a fusão com o antigo estado da Guanabara (município do Rio de Janeiro), em 1975, lidera as estatísticas do percentual de idosos (o que explica o forte registro de casos na cidade, com dois óbitos até o momento). O outro ponto é o bairro de Copacabana, que concentrou, domingo, a contraindicada aglomeração de protesto contra a atuação (constitucional) do Congresso e do Supremo Tribunal Federal.

Copacabana chega a ter mais de 20% de sua população na faixa com mais de 60 anos. Mas a incidência da terceira idade é igualmente alta no Flamengo (2º do ranking), Tijuca, Meier, Leblon e Ipanema.

Moléstias que mais matam

Se você está, como eu, que tenho 70 anos e tenho asma desde que desmamei aos seis meses (mas deixei de ter crises quando aboli o leite de vaca na minha alimentação), preocupadíssimo com o Covid-19, saiba que há uma previsão de 30 milhões de nascimentos este ano (média diária de 262 mil bebês) e de 12,7 milhões de mortes em 2020 (média de 110 óbitos diários). E a maior causa mortis não será o Covid-19.

O site wordometers/info/br estima que este ano a maior causa mortis continuará sendo o câncer, com 1,7 milhões de pessoas, seguida pelo tabagismo, com 1,076 milhão de baixas. O álcool deve levar meio milhão de pessoas. O vírus HIV, causador da AIDS, ceifaria 362 mil vidas. Desastres de trânsito matarão 290 mil pessoas (a estatística pode ser alterada para menos pela parada geral da Covid-29).

Portanto, se sobrevivermos a essa pandemia, sem perdas de vidas de familiares e amigos, que tal aproveitarmos esse confinamento forçado para uma mudança de hábitos radical?