Preso suspeito de ataques hackers dizia ser investidor e aluno da USP

BRASÍLIA, DF, SÃO PAULO, SP, E ARARAQUARA, SP (FOLHAPRESS) - Os quatro presos pela Polícia Federal na terça (23) sob suspeita de um ataque hacker contra autoridades, entre elas o ministro da Justiça, Sergio Moro, são de Araraquara (a 278 km de São Paulo), mas viviam em cidades diferentes.

Os presos de forma temporária (por cinco dias, prorrogáveis por mais cinco) são Gustavo Henrique Elias Santos, 28, Suelen Priscila de Oliveira, 25, Walter Delgatti Neto, 30, e Danilo Cristiano Marques, 33.

A Folha de S.Paulo fez uma pesquisa de imóveis e terrenos dos quatro em cartórios do estado de São Paulo, mas não foram localizados registros em seus CPFs.

Walter Delgatti se apresentava em Araraquara como investidor e pelo menos uma vez afirmou ter conta bancária na Suíça. Gostava de se vangloriar sobre suas supostas conexões e fingia ser aluno de medicina na USP, o que não era verdade, segundo documentos e depoimentos do próprio Delgatti em inquéritos e processos de que já foi alvo.

Em 2015, ele afirmou ter uma renda mensal de R$ 4.000 e o segundo grau completo. Delgatti tinha uma arma de ar comprimido, do tipo "air soft", que parecia uma arma de verdade. Gostava de exibi-la, segundo ele, porque temia ser alvo de ladrões. Nesse mesmo ano, possuía dois carros, um BMW e um utilitário Hyundai Santa Fe, avariados em acidentes de trânsito mas que, para Delgatti, poderiam atrair atenção de bandidos.

Delgatti foi alvo de um mandado de busca e apreensão em sua casa, também em 2015, depois que uma garota de 17 anos, então namorada de seu irmão, o acusou de tê-la dopado e estuprado --ela depois refez seu primeiro depoimento.

A delegada de polícia encarregada de cumprir o mandado, Meirilene Rodrigues, escreveu em relatório que Delgatti teve postura desafiante ao receber os policiais em seu apartamento em Araraquara.

"O investigado Walter calmamente informou que já havia visto o mandado [de busca e apreensão], dizendo ainda, sarcasticamente: 'Eu estava esperando por vocês'".

Quando indagado sobre como sabia, ele disse que era "uma pessoa influente" e que havia recebido o mandado escaneado "em seu notebook, há dois dias", e que tinha "amigos no fórum e policiais", que era amigo de um promotor de Justiça e conhecia uma juíza.

Para explicar como teve acesso ao documento, Delgatti mostrou um outro mandado, contra seu irmão, Wisllen, "e mostrou tal documento na tela do seu notebook".

A delegada procurava uma arma que teria sido usada no estupro contra a menor de idade. Delgatti disse que tinha uma, de ar, e "a usava na cintura" porque temia um assalto.

Porém, afirmou que sabia atirar com arma de verdade, que frequentara um clube de tiro e que era amigo de um coronel da Polícia Militar de São Paulo e vereador.

Delgatti disse para a delegada que sua profissão era investidor "e que tem uma conta em um banco da Suíça, motivo pelo qual ele faz várias viagens por ano, para aquele país e para a Europa por causa da movimentação dessa conta".

Ele disse ainda que a declarava em seu Imposto de Renda. A delegada quis saber qual era a sua fonte de renda e "no que ele realmente trabalhava". Ele permaneceu em silêncio.

Na mesma busca e apreensão, Delgatti foi autuado em flagrante por posse de vários medicamentos controlados e de receitas preenchidas em nome de terceiros" para a compra desses remédios. Também foi encontrada uma carteirinha de aluno de medicina da USP que depois se provou ser falsa. Sobre isso, Delgatti disse que queria "enganar as meninas".

Preso na zona sul de São Paulo, Gustavo Santos era conhecido como DJ Guto Dubra em Araraquara. Ele organizava a festa Harlem Shake (um tipo de música eletrônica fenômeno em 2013) em cidades no interior de São Paulo.

No discurso e nos créditos de um dos vídeos do seu perfil do YouTube, menciona apoio do ex-vereador Ronaldo Napeloso, investigado pela Polícia Federal e condenado por lavagem de dinheiro e fraude processual em 2017.

Um DJ que era seu amigo e preferiu não se identificar disse que a prisão de Gustavo foi um choque para as pessoas que o conheciam e o viam tocar em festas da cidade.

Gustavo já foi preso por ter receptado uma caminhonete Hilux em 2013. Julgado em 2015, foi condenado a cumprir seis anos e seis meses em regime semiaberto. O advogado Ariovaldo Moreira, que também o defende no caso do ataque hacker, recorreu e pediu redução da pena. Assim, Gustavo passou ao regime aberto.

Ele movimentou R$ 424 mil entre 18 de abril de 2018 e 29 de junho de 2018, tendo uma renda mensal de R$ 2.866.

Também foi presa sua namorada, Suelen Priscila de Oliveira, que há cerca de seis anos deixou a casa onde vivia em Araraquara brigada com o pai --ele não aprovava o relacionamento.

"Passei mal, tenho pressão alta e meu coração quase parou", afirmou a avó de Suelen, Neide Oliveira, 72, sobre a prisão da neta. "E fiquei muito sentida também. A família é a última a saber."

De acordo com Neide, Suelen e Gustavo se conheceram em um baile e, pouco tempo após o início do namoro, se mudaram para uma casa no bairro Selmi Dei, na periferia de Araraquara. Foi de uma casa cinza guardada por uma câmera de segurança que partiram os ataques hackers às autoridades, segundo a decisão judicial que determinou a prisão temporária dos suspeitos.

A família de Suelen afirma que ela não tinha ensino superior, mas fez um curso de informática pago pela avó.

Danilo Marques, que se diz ex-motorista de Uber, negou em depoimento, prestado nesta quarta (24), que tenha qualquer participação nos crimes.

Segundo a defensora pública federal Manoela Maia Cavalcante Barros, que representa Marques, a única prova é um endereço de IP rastreado pela PF que não era usado por ele, embora estivesse registrado em seu nome. Barros lembra que o endereço de IP estava registrado em Ribeirão Preto (SP), enquanto seu cliente mora em Araraquara.

"Ele ficou totalmente surpreso com a situação. Ele conhece as outras pessoas [suspeitas] porque todos eram de Araraquara. O que o vincula é o IP que teria dado origem às ligações [para a prática da invasão dos celulares], mas ele não fazia uso", disse Barros. "Ele não tinha conhecimento [das mensagens obtidas ilegalmente], não viu nenhuma mensagem."

Ainda de acordo com a defensora, Marques era motorista de Uber, foi preso enquanto fazia um curso de eletricista para tentar um emprego e não sabia que Delgatti tinha habilidades na internet. Em nota, a Uber informou que ele fez apenas três viagens pelo aplicativo e que não realizava corridas há cerca de três meses.