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Oposição vê nepotismo em indicação de Eduardo Bolsonaro para embaixada nos EUA

FolhaPress DANIEL CARVALHO

Representantes da oposição na CRE (Comissão de Relações Exteriores) do Senado, colegiado que aprova ou rejeita nomes de embaixadores indicados pelo Palácio do Planalto, contestaram a possibilidade de o presidente Jair Bolsonaro (PSL) indicar o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), um de seus filhos, para comandar a embaixada do Brasil nos Estados Unidos.

Eles dizem se tratar de nepotismo e alguns membros afirmaram que a indicação desrespeita a carreira diplomática.

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Deputado Eduardo Bolsonaro (Foto: REUTERS/Joshua Roberts)

"Não sou favorável. Tem os profissionais que dedicam sua carreira a isso. Não vejo de forma nem um pouco positiva. Os filhos [de Bolsonaro] não podem ter este protagonismo que estão tendo porque você confunde. É a família que está no comando do governo federal?", afirmou o vice-presidente da CRE, senador Marcos do Val (Cidadania-ES).

Líder da minoria e também integrante da comissão, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) disse que a indicação do nome de Eduardo Bolsonaro é um escárnio e anunciou que vai ingressar com uma ação no STF (Supremo Tribunal Federal) caso a possibilidade anunciada por Jair Bolsonaro se confirme.

"É um escândalo total. Tenha certeza que o governo Bolsonaro terá o primeiro caso de rejeição de embaixador. É um caso flagrante de nepotismo que não pode ser aceito", declarou. 

O senador Angelo Coronel (PSD-BA) disse que "será uma indicação terrível", mas que quer sabatinar Eduardo para aferir sua qualificação para o posto.

  "A relação familiar e falar a língua do país não significa que a pessoa tenha todos os predicados para a função", disse Coronel.

O PSL, partido de Bolsonaro, tem como titular na comissão o líder da legenda no Senado, Major Olímpio (SP). Irmão de Eduardo, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) é suplente no colegiado.

Presidente da CRE, Nelsinho Trad (PSD-MS) reagiu às críticas dos colegas de comissão.

"Quem está chiando, vai se candidatar, leva facada, ganha e aí indica quem quiser", disse Trad, fazendo referência ao atentado à faca sofrido por Bolsonaro durante sua campanha presidencial, em 2018.

O senador disse não ver problemas na indicação.

"Uma embaixada desta importância e um ato como este, que é discricionário do presidente, ele vai por alguém que é da coronária dele. Acabou indicando uma pessoa, se é que isso vai se concretizar, que é muito próxima dele e deve dar sequência a este alinhamento notório que se tem com os Estados Unidos", disse Trad.

As indicações de embaixadores têm que ser aprovadas pelo Senado. Segundo Trad, quando a mensagem do presidente chegar ao Senado e for lida em plenário pelo presidente da Casa, Davi Alcolumbre (DEM-AP), é automaticamente encaminhada à CRE.

O senador diz que um relator será designado por ele e, em até três semanas, o relatório é apresentado e a sabatina do indicado, realizada. Aprovada a indicação, a mensagem segue para o plenário, onde há nova votação.

Técnicos da comissão dizem que, tanto no colegiado como no plenário, a votação é secreta e a aprovação se dá por maioria simples.

Trad disse que não se surpreendeu com a possibilidade de Bolsonaro indicar o filho para aquela que é considerada a principal embaixada do Brasil.

"Viajei com eles para os Estados Unidos. Notei lá uma desenvoltura bastante firme dele. Alguns eventos, ele mesmo que organizou. Para mim, ele vai surpreender e vai desempenhar com muito êxito esta nova missão desde que tudo possa ser superado e preenchido", afirmou.

O presidente da comissão de Relações Exteriores disse não ver nepotismo na eventual indicação e disse que Eduardo é alguém da confiança total do presidente da República.

"Esta relação com os EUA está sendo tratada como sendo uma pérola de cristal e não pode errar. O Eduardo, pelo que a gente já soube, tem uma militância na área de relações internacionais antes mesmo de ser deputado. Para mim, isso não é problema, até porque é um ato discricionário", afirmou.