Mulher mantida em cárcere privado por 20 anos reencontra idosa de quem cuidava e diz não quer abandoná-la

CAMPINAS, SP (FOLHAPRESS) - Após ser mantida em cárcere privado por 20 anos e ter sido libertada na última terça (25), Iva da Silva Souza, 63, reencontrou nesta quarta-feira (26) a idosa de 88 anos pela qual era responsável e disse que não pretende abandoná-la.

Iva foi confinada e trabalhava em regime análogo à escravidão pelo casal Écio Pilli Junior, 47, e Marina Okido, 65 --a idosa de 88 anos é mãe de Marina. O caso aconteceu em Vinhedo (a 80 km de São Paulo).

A polícia chegou até o casal durante uma investigação de estelionato --eles usavam cheques no nome de Iva para aplicar golpes no comércio da Vila João 23, onde viviam.

Após ser liberada, Iva foi levada para um abrigo mantido pela Prefeitura de Vinhedo. A idosa, que havia sido levada para a Santa Casa da mesma cidade, teve alta e foi removida para o abrigo onde está Iva.

Foi para cuidar da idosa de 88 anos que Iva foi contratada pelo casal, segundo relato da vítima à polícia.

Ela, no entanto, não recebia salário e só tinha permissão para circular em dois cômodos da casa --nunca saía para a área externa e não podia atender a campainha. 

Segundo o secretário de Assistência Social de Vinhedo, Eduardo Galasso Calligaris, as duas criaram laços afetivos muito fortes. "Era como se fossem mãe e filha".

Na tarde desta terça, Iva recebeu a visita de sua irmã, Odete da Silva Souza, 57, que mora em Araraquara. "Agora a gente sabe que ela está bem", disse Odete.

Segundo ela, Iva a reconheceu imediatamente, mesmo sem se ver após 47 anos, e deram um longo abraço. 

Para a irmã, Iva já havia demonstrado o desejo de não se afastar da idosa de 88 anos. "Ela (Iva) disse que sem ela por perto, a idosa vai morrer. Eu falei pra ela: Acorda! Você agora precisa viver sua vida".

Calligaris diz que Iva será mantida no abrigo por alguns dias para assistência psicológica. Depois, ela vai definir se irá para Araraquara, na casa da irmã, ou Colorado (PR), na casa da mãe. 

As duas já manifestaram a intenção de recebê-la. A assistência social de Vinhedo também procura mais parentes da idosa de 88 anos, já que sua filha, Marina, foi presa. Por enquanto, ela também ficará no abrigo.

Écio Pilli Junior e Marina Okido tiveram prisão preventiva decretada e foram levados para o CDP (Centro de Detenção Provisória) de Jundiaí e para a Cadeia Feminina de Itupeva, respectivamente. 

Eles devem responder por cárcere privado, tortura e estelionato. Segundo a Polícia Civil de Vinhedo, os suspeitos admitiram ter mantido Iva confinada, mas que não sabiam que a prática era criminosa. O casal ainda não teve advogado constituído.