Escola de línguas no RJ e em SP contrata refugiados para lecionar aulas

Viver em um pais estrangeiro é sempre um processo de grande adaptação: língua nova, comida diferente, tradições e hábitos de vida alheios aos nossos. Contudo, enquanto para uns a mudança é sinônimo de aventura, de alargar horizontes culturais e fruto de uma tomada de decisão livre, para outros, a realidade assume contornos não tão felizes. De acordo com dados disponibilizados pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), em 2018, 68,5 milhões de pessoas viram-se forçadas a abandonar seus países de origem pela sobrevivência. Só em território brasileiro há 149 mil refugiados reconhecidos, que esperam decisão ou têm outra proteção. Com a migração forçada chegam também obstáculos como a dificuldade em arranjar um emprego, por fatores como a barreira linguística, documentação e, muitas vezes, até descriminação racial. Foi precisamente tendo em conta todos essas questões que, em 2014, nasceu a Abraço Cultural, uma escola de idiomas.

"Durante o período da Copa do Mundo de Futebol, em 2014, a plataforma de voluntariado Atados criou a 1ª edição da Copa dos Refugiados, com o intuito de promover a integração dessas pessoas na sociedade brasileira. Após o fim da iniciativa, percebemos que era preciso fazer mais para apoiar essas comunidades, era preciso criar um projeto mais duradouro e sustentável”, conta Mariângela Garbelini, uma das coordenadoras da Abraço Cultural.

Entre os principais diferenciais da escola, presente em São Paulo e no Rio de Janeiro, está o fato de a equipe de professores ser composta exclusivamente por refugiados oriundos de 12 países. "Ao contratarmos migrantes forçados estamos assegurando que eles tenham uma fonte de renda para conseguir viver dignamente e, ao mesmo tempo, permitindo também que se sintam úteis e parte integrante da sociedade”, acrescentou Mariângela.

Um dos docentes, Ali Jeralti, de 31 anos, fugiu de sua terra natal, a Síria, devido à guerra que assolou o país, e diz com alegria que se sente muito bem acolhido pelo Brasil e pelos estudantes que frequentam suas aulas: ”Me senti muito bem recebido no Brasil, sim, e gosto muito deste país maravilhoso. Os alunos são muito curiosos em relação a cada detalhe da minha cultura e têm sempre muitas questões para colocar”.

Ana Cunha, de 40 anos, aluna do curso de árabe já há dois na Unidade de São Paulo, diz ter escolhido a Abraço Cultural e não outra escola de línguas por acreditar no impacto positivo do projeto: "O trabalho da Abraço é fundamental para este momento do país, para realçarmos a importância de uma convivência em harmonia entre todos, e que, por sermos diferentes, estamos em constante aprendizado com o outro."

O projeto Abraço Cultural promove, além do ensino de idiomas, aulas de culinária, shows musicais, mostras de arte e debates políticos.