Para Comando Militar do Sudeste, Golpe de 1964 freou 'escalada rumo ao totalitarismo'

Seguindo as instruções do presidente Jair Bolsonaro, os militares em São Paulo homenagearam, nesta quinta-feira (28), o golpe de Estado em 1964, por ocasião do seu 55º aniversário, dizendo que as Forças Armadas responderam ao "clamor" popular para travar uma "escalada rumo ao totalitarismo".

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Militares do Exército brasileiro (Foto: sd lucas almeida/ reprodução redes sociais exército)

Bolsonaro, que ao longo de sua carreira como deputado enalteceu a ditadura em numerosas ocasiões, reacendeu o debate esta semana, incentivando na segunda-feira que os quartéis celebrem o movimento militar, negando, além disso, que tenha sido um golpe.

Não se trata de "comemorar, mas lembrar", disse o chefe de Estado na quarta-feira, dada a polêmica gerada por sua iniciativa.

"Rever o que está errado, o que está certo e usar isso para o bem do Brasil no futuro", acrescentou, depois de participar de um evento militar em Brasília.

O Ministério Público Federal orientou os comandos militares de cada região a se abster "de promover ou tomar parte de qualquer manifestação pública, em ambiente militar ou fardado, em comemoração ou homenagem ao período de exceção instalado a partir do golpe militar de 31 de março de 1964", por considerar que viola a Constituição.

Ainda assim, alegando apenas uma "rememoração do fato histórico", o Comando Militar do Sudeste (São Paulo) realizou, durante uma cerimônia, a leitura de um texto, assinado pelo ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, que justifica a ação militar de 1964, como parte de uma luta global contra o comunismo.

No texto, as Forças Armadas afirmam que a humanidade assistiu, no início do século XX, à ascensão de ideologias totalitárias tanto na extrema-esquerda, referência ao regimes autoritários comunistas, quanto na extrema-direita, referência ao nazifascismo.

"O 31 de março de 1964 estava inserido no ambiente da Guerra Fria, que se refletia pelo mundo e penetrava no País. As famílias no Brasil estavam alarmadas e colocaram-se em marcha. Diante de um cenário de graves convulsões, foi interrompida a escalada em direção ao totalitarismo. As Forças Armadas, atendendo ao clamor da ampla maioria da população e da imprensa brasileira, assumiram o papel de estabilização daquele processo", afirma a mensagem lida diante das tropas.

O texto não utiliza em nenhum momento as palavras "golpe" ou "ditadura", nem menciona o fechamento do Congresso, a suspensão dos direitos e liberdades individuais imposta pelo regime em 1968 ou a detenção arbitrária e tortura de opositores, documentada pela Comissão Nacional da Verdade (CNV).

De acordo com um relatório da CNV publicado em 2014 - a versão oficial do Estado brasileiro sobre o período - os "anos de chumbo" deixaram pelo menos 434 mortos e desaparecidos, um número de vítimas consideravelmente mais baixo do que em outros países latino-americanos, como Chile (3.200) ou Argentina (30.000, segundo organizações da sociedade civil).

Ao contrário de seus vizinhos, o Brasil não levou à Justiça os agentes do Estado acusados de cometer crimes durante a ditadura, devido a uma lei de anistia de 1979.

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