Megaoperação para contato com Korubos

Com 25 integrantes e custo inicial de R$ 250 mil, podendo chegar a R$ 816 mil em um ano, a Funai deu início a maior expedição para contato com índios isolados em 20 anos. A 'Missão Korubo' pretende evitar uma guerra entre os Korubo do Coari e os Matis na Terra Indígena Vale do Javari, no extremo oeste do Amazonas.

Os Korubo do Coari, com parte dos índios em total isolamento, reivindicam o direito à terra próxima ao Rio Coari e têm entrado em confronto com os Matis, já contatados. O caso envolve invasões de território. Os Korubo têm entre 30 e 40 índios isolados em estimativa feita em 2015 pela Funai.

A missão tem o apoio da Polícia Federal (PF), da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas e do Exército. O Ministério Público Federal e outras organizações indígenas da região foram informados da missão. Uma embarcação com quatro botes, além de helicópteros, deve gastar 2 mil litros de gasolina. Seis índios Korubo já contatados, com parentes entre os isolados, participam da ação.

A informação detalhada da operação foi publicada pelo jornalista Matheus Leitão em seu blog no G1. Segundo a reportagem, o histórico de interação entre as etnias remete aos idos da década de 1920 , mas o auge do recente tensionamento aconteceu em julho de 2018, quando técnicos da Funai perceberam a possibilidade de um novo encontro, com aproximação de menos de um quilômetro, entre os Korubo e os Matis da aldeia Todowak.

Macaque in the trees
Operação Funai no início de 2015 mapeou os Korubos. Eles têm entre 30 e 40 índios isolados (Foto: Reprodução/Funai)

Em 2015, também houve outro capítulo importante da tensão entre as duas etnias, principal suspeita dos antropólogos e indigenistas da Funai para o fato de as duas tribos estarem se aproximando fisicamente nos últimos tempos. Naquele ano, um desentendimento interno entre os Korubo dividiu a aldeia indígena. Uma parte ameaçada fugiu de um afluente do Rio Coari - tradicional local de moradia dos Korubo - para as margens do Rio Branco, mais próximo aos Matis.

Na saída, o pequeno grupo de índios Korubo que se desentendeu levou uma integrante com parentesco mais próximo da população da mesma tribo que permaneceu no afluente do Rio Coari. Nesta dispersão, contudo, o grupo menor de Korubos encontrou os Matis, o que levou a uma outra intervenção da Funai.

Esses dois grupos Korubo nunca mais se encontraram, mas os integrantes da tribo que tiveram esse recente contato da Funai, após o evento de cisão, querem rever seus parentes que permaneceram isolados no Coari. Na avaliação dos funcionários de carreira da fundação, diante dos vários fatos que ocorreram neste caso, não realizar a expedição seria uma omissão. Há risco de extinção física da etnia, segundo eles, no caso de um contato inadvertido.

A Funai evitou ao máximo o contato com esses índios isolados sempre com o intuito de seguir a política atual da fundação, consolidada a partir de 1987. Nesta época, se iniciou a ideia atual de "zero encontro", para garantir autonomia dos índios isolados. A política é de nunca tomar a iniciativa de aproximação para preservar a decisão deles de se isolar, mas o órgão abrirá uma exceção com o argumento de tentar evitar esse confronto entre os dois grupos indígenas na terra do Vale do Javari.

A equipe responsável pela expedição pretende utilizar um plano de contingência para entrar em contato com os índios e evitar danos à saúde do grupo. Interações com povos indígenas no passado levaram a tragédias, com a morte de até 70% da população de índios por doenças como gripe ou sarampo, porque as tribos não têm imunidade.