Após se despedir de neto falecido, Lula volta à prisão

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva retornou neste sábado (2) à prisão onde cumpre uma condenação por corrupção, após comparecer emocionado ao funeral de seu neto Arthur, em São Bernardo do Campo, com uma permissão para deixar por algumas horas a prisão sob uma forte escolta.

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Lula no enterro do neto (Foto: Miguel SCHINCARIOL / AFP)

O ex-presidente (2003-2010) voltou à sede da Polícia Federal, em Curitiba, por volta das 15h45, quase nove horas depois de iniciar a sua viagem para o cemitério de São Bernardo do Campo, onde se despediu de seu neto, que faleceu repentinamente devido a uma meningite aos sete anos.

Com um gesto cansado, Lula chegou às 11h00 à cerimônia em um comboio de automóveis pretos, do qual desceu escoltado por agentes armados.

Usando um terno escuro e uma camisa clara, cumprimentou com muito sério os militantes que o aguardavam na porta aos gritos de "Lula, guerreiro do povo brasileiro". Quase duas horas depois, deixou o local aplaudido por seus partidários.

Apoiando a família do patriarca da esquerda também estiveram vários representantes de movimentos sociais e do Partido dos Trabalhadores, como a ex-presidente Dilma Rousseff e Fernando Haddad, candidato derrotado nas últimas eleições.

Numerosos ramos de flores adornavam a sala onde ocorreu o velório, fechado à imprensa, incluindo uma coroa enviada pelo presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, informou o jornal Folha de São Paulo.

Sem conseguir conter as lágrimas, o ex-líder sindical, de 73 anos, se dirigiu aos seus parentes durante a cerimônia que antecedeu a cremação do menino, pouco antes de ter que ir embora.

"As palavras de Lula ao se despedir emocionaram a todos", contou depois João Pedro Stedile, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), ao portal G1.

"Disse que ele [Arthur] vinha sofrendo bullying na escola, que os colegas dele ficavam dizendo que o avô dele era ladrão e por isso estava preso. Fez um testemunho [com o neto] dizendo que se comprometia a lutar de todas as formas para que o Poder Judiciário o reconhecesse como inocente", afirmou.

Arthur, cujo pai é Sandro Luis Lula da Silva, um dos cinco filhos de Lula, havia visitado o avô na prisão em duas ocasiões.

 

O amplo dispositivo de segurança cobriu a viagem do ex-presidente, de cerca de 425 quilômetros, em várias etapas, que começaram às 07h00, quando Lula deixou de helicóptero o edifício da Polícia Federal em Curitiba rumo ao aeroporto.

De lá viajou até São Paulo em um avião do governo do Paraná, antes de completar a penúltima etapa até São Bernardo, berço de sua carreira política e seu local de residência, novamente de helicóptero.

O itinerário havia sido mantido em segredo por ordem da Justiça.

O ex-presidente foi autorizado a sair da prisão em aplicação de uma lei que permite aos presos visitar parentes próximos gravemente feridos, ou comparecer aos seus funerais.

Esta é a segunda vez que Lula deixa o edifício onde ocupa uma cela desde que, em 7 de abril, começou a cumprir uma pena de 12 anos e um mês de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

A primeira foi em novembro, quando foi levado para prestar depoimento ante um tribunal de primeira instância de Curitiba, em um caso pelo qual foi condenado no mês passado a outros 12 anos e 11 meses de prisão.

No fim de janeiro, Lula não pôde comparecer ao enterro de seu irmão Genival Inácio da Silva, conhecido como Vavá, porque a Justiça lhe concedeu uma permissão de última hora, quando já estava ocorrendo o funeral.

"Não deixaram que me despedisse de Vavá por pura maldade", disse naquela ocasião.

 

O deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente de extrema direita Jair Bolsonaro, considerou "absurdo" que a Justiça autorizasse a saída de Lula.

"Lula é preso comum e deveria estar num presídio comum. Quando o parente de outro preso morrer ele também será escoltado pela PF para o enterro? Absurdo até se cogitar isso, só deixa o larápio em voga posando de coitado", escreveu no Twitter na sexta-feira.

O tuíte gerou uma onda de críticas, inclusive entre seguidores do legislador de 34 anos, um dos três filhos de Bolsonaro dedicados à política, que amenizou depois as suas palavras destacando que a morte do menino era um fato "lamentável e indesejável".

Outros adversários políticos de Lula, ao contrário, manifestaram o seu apoio, como o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, que expressou a sua "total solidariedade" diante da dolorosa perda.

Lula encadeou uma série de tragédias pessoais e reveses políticos e judiciais desde a morte de sua esposa, Marisa Leticia, em fevereiro de 2017 até a morte de seu neto, passando por sua prisão e a derrota de Fernando Haddad nas eleições presidenciais de outubro contra Bolsonaro.

O ex-presidente responde a outros processos na Justiça, mas se declara inocente em todos e denuncia uma conspiração para impedi-lo de retornar ao poder.