Exclusivo - Entrevista com Ciro Gomes: Sob o risco de colapso

Candidato do PDT critica PT e acusa Bolsonaro de montar equipe de medíocre a deplorável

Beto Herrera
Credit...Beto Herrera

Ciro Gomes está de volta e disposto, ainda que na oposição, ouvir as propostas do Governo que até agora, segundo ele, não disse a que veio. Em entrevista exclusiva ao JB, o vice-presidente nacional do PDT ressalta que o problema brasileiro é muito grave. “Estão colapsados três pilares para colocar o país nos trilhos do desenvolvimento: consumo das famílias, o investimento empresarial e o investimento público”. O país precisará de respostas rápidas porque não aguentará nem um ano sem apontar soluções para os mais graves problemas da Nação.

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JB - Como o sr. avalia os primeiros dias do governo Bolsonaro? E como articular uma oposição crítica ao governo?

Ciro Gomes - O Brasil precisa voltar a cultivar a virtude da democracia. Não adianta a gente falar a palavra democracia e não ter um comportamento democrático, nem cultivar os valores e praticar os gestos, aqueles que, afinal de contas, afirmam uma nação democrática. Não estou falando isso como coisa trivial. Vamos precisar muito desses valores. Primeiro: o problema brasileiro é muito grave e pouco importa o Bolsonaro. Os motores do desenvolvimento brasileiro estão todos colapsados, todos enguiçados. O consumo das famílias estrangulado pelo desemprego, pela informalidade, que está crescendo e pelo colapso do crédito: 63 milhões de pessoas com o nome no SPC. Segundo, o investimento empresarial está colapsado pelo endividamento inédito na história capitalista brasileira. São R$ 2 trilhões de dívidas com 600 bilhões de reais caminhando para inadimplência. Isso provoca uma retração do sistema financeiro que já foi criminosamente concentrado - 87% das transações no Brasil estão concentradas em cinco bancos. Essa é uma obra do PT e do PSDB. Terceiro, o investimento público completamente colapsado. O Brasil tem hoje 2300 grandes obras paradas, se deteriorando, causando prejuízos. A transposição do São Francisco, por exemplo, falta meio por cento para terminar e está parado. Logo, não tem investimento público, não tem investimento privado e nem tem o consumo das famílias. A ideia ilusória de uma certa elite é que nós vamos ser salvo disto pelo capital dos outros. Não existe esse precedente. Nenhum país do mundo sustentou seu desenvolvimento com o capital dos outros. Portanto, esse é o problema básico do Brasil , que é muito grave.

E como resolver isso?

É preciso um diagnóstico correto, equipe muito qualificada e uma brutal habilidade e autoridade política por causa da fragmentação grave, inédita da liderança política brasileira. O Bolsonaro, ele próprio, não conhece o problema; cercou-se de uma equipe de medíocre a deplorável, onde avultam grupos absolutamente inconciliáveis, se digladiando precocemente pelo poder.

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Ciro Gomes (Foto: Beto Herrera)

Por exemplo?

Onyx Lorenzoni destruiu a burocracia da Casa Civil por onde passam todas as decisões do presidente da República. O Onyx colapsou a Casa Civil. Esse maluco de Minas Gerais (governador Romeu Zema, do partido Novo) colapsou o governo do estado. Hoje o Brasil não pode decidir nada porque toda a estrutura de assessoramento jurídico, de formatação de decretos e portarias está colapsada por um maluquete. O Paulo Guedes (Ministro da Economia) não tem um dia de experiência no serviço público. É um ganhador de dinheiro e cerca-se de diagnósticos errados. Parou de ler nos anos 80. Temos ainda o núcleo militar. É a maior quantidade de militar em um governo, sem precedente na ditadura.

Está faltando diálogo?

O Bolsonaro não percebeu que a campanha acabou. Não conheço uma proposta do governo. Tirando facilitar armas, o moralismo de goela, e a previdência que vem e que vai... Mesmo com um bom diálogo com todo mundo já não é fácil, imagina sem conversar, sem repartir responsabilidades, sem informar a população. O presidente sendo desmentido por ministros, isso em 12 dias. Eu, por exemplo, achava que devia me recatar, e continuo achando, fui candidato. Minha ideia era fazer, dentro do rito democrático, 100 dias de trégua. Nesse período errar é normal, mas comecei a falar para tentar advertir porque nesse ritmo o capital político, que é muito importante nesse começo, está se dissipando.

Para garantir a governabilidade, ele se aproxima da “velha política” e vai apoiar a recondução de Rodrigo Maia (DEM) à Câmara...

Sim. Mas a mentira é ancestral, não é de agora. A pedra angular da maquetagem dele, portanto da autoridade política, está assentada em duas pernas; moralismo simplificador, e segurança. Só que isso é impossível de ser feito sem uma ampla mudança estrutural no país. O pecado do pecador é completamente desculpável na nossa moral cristã. Mas o pecado do pregador é indesculpável. Tem o filho do general Mourão, um amigo particular que vira gerente da Petrobras e ainda toda a imundice do filho (Flávio Bolsonaro). Nos cem dias vou exigir explicações porque isso (caso do ex-assessor Fabrício Queiroz) não dá pra engolir porque é uma pedra angular que ele escolheu.

Mas negociar não é preciso?

Sim é. Mas para quem sinalizou para o povão a possibilidade de um governo asséptico, sem contradição, o que se vê é o capital político se dissipando rapidamente. Isso é ruim para o país. A mim não interessa a confusão, a baderna, a ecatombe no governo. Isso não ajuda a ninguém. O povo é a principal vítima. Quero fazer uma oposição racional, que reconhece os problemas e que obrigue o governo a jogar o jogo democrático. O país não aguenta mais ser espoliado. Tenho muito medo da confusão. O cara entra no governo com todo o capital político que tem e se interdita se não tem aumento de receita. Qual país do mundo que não cobra tributo sobre lucros e dividendos? Nenhum. Heranças e doações é o grande tributo para se fazer justiça.

Como articular essa oposição com partidos tão fragmentados?

É o sinal dos tempos porque o quadro brasileiro é de fim de época. Você tem um ciclo histórico da social democracia, institucionalizado em 88, com nuances sociais pelo FHC e pelo Lula. Nesse período se estimulou o nacional consumismo enquanto se descuidou das questões reais da produção. O Brasil é sede da maior desindustrialização da histórica do mundo capitalista. Isso acabou desmoralizando esse flanco nacional democrata. Esse ciclo econômico fechou e o ciclo político naturalmente veio abaixo. O PT está que nem cachorro em mudança de pobre: caiu do caminhão e ficou perdidaço. Todos envelhecemos e o PT apodreceu. É lamentável dizer isso, mas tem que ser dito porque senão o rei vai passar nu e vamos continuar alimentando a ilusão de que temos um líder preso injustamente e que toda a agenda do país é o Lula livre, mas a agenda do país não pode ser essa.

Essa ingerência do Lula no processo eleitoral...

Foi um desastre para o país. O Lula é uma figura extraordinária, mas na cadeia perdeu a noção da realidade. O cerco ao seu redor é de puxa sacos. De repente, inventam o Haddad, chapa tripla. O apreço dessa gente pela democracia e inteligência do povo é nenhum. O que explica o PT boicotar a posse do Bolsonaro mas ir à do Maduro? O Brasil precisa saber as razões pelas quais não aguento mais ficar calado. A ideia agora é fazer o PT baixar a bola. Estamos tentando comover o PCdoB e o PSB a aceitarem formar um bloco na Câmara. E no Senado a mesma coisa, sendo que PCdoB não tem representação. Botamos a Rede que tem 5 senadores. Temos um bloco no Senado com 15 dispostos, como oposição, ouvir o governo.

O novo Congresso tem condições de responder ao desafio?

Não, não tem. O Congresso eleito é pior do que está aí e não é por corrupção. Esse identitarismo neopentecostal e freixista, psolista não permite discussão de desenvolvimento, por exemplo. Esse identitarismo será a marca desse novo congresso e a força que muda isso vem do Executivo e como não há uma hegemonia moral, nem intelectual você tende à cooptação caso a caso.

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BC gira mais de R$ 1 trilhão sem risco para os bancos

Crítico contundente da concentração bancária “que se iniciou com o PSDB de FHC e se acentuou nos governos do PT, com o apoio mais agudo do governo Dilma, levando a que 87% do crédito do país estejam na mão de cinco bancos”, Ciro Gomes chama a atenção para o fato de “o Banco Central ser o grande responsável pelos ganhos dos rentistas, e dos grandes bancos” por estar garantindo, “via operações compromissadas”, o giro diário no overnight ou em operações de curto prazo de “mais de R$ 1 trilhão da dívida pública, sem risco para os bancos”.

Segundo os dados do BC de novembro, a dívída pública bruta, que inclui o endividamento interno e externo da União, estados e municípios, somava R$ 5,284 trilhões. E a dívida pública líquida, excluída a fatia dos papéis em nome dos emissores e do BC, caía para R$ 3,644 trilhões. Assim, os R$ 1,1 trilhão que o BC gira no mercado, garantindo liquidez aos bancos, equivalem a 30% da dívida líquida e a 20,8% da dívida bruta. O candidato do PDT é enfático em criticar essas operações: “o Banco Central está sendo levado a fazer emissões diárias, o que fere a Lei de Responsabilidade Fiscal”. Para ele, o BC ficou “refém e sócio” dos bancos. Ele disse que “se estivesse na presidência pegava uma parte dos quase US$ 400 bilhões em reservas, que rendem pouco mais de 1,5% ao mês ao Tesouro e daria financiamentos à indústria a juros poucos maiores com risco assumido pelo Fundo Soberano, que foi praticamente esvaziado no governo Temer”. (GMC)



Ciro Gomes
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