Repasses não são novidade na Alerj

Deputados admitem a prática, mas dizem que levar vantagem é crime

Mesmo sem querer comentar o caso dos assessores de Flávio Bolsonaro (PSL) investigados pelo Coaf, deputados estaduais do Rio admitem que o repasse de salários acontece nos gabinetes da Assembleia Legislativa. O que não se sabe, segundo o deputado Paulo Ramos (PDT), é o objetivo da transação. “Tem repasse. Mas é preciso olhar como é feito. Cada gabinete tem a sua dinâmica. Existem duas hipóteses: ou é para botar no bolso ou é para compartilhar, ou seja, o desmembramento de cargos”, disse o pedetista, ponderando: “Ainda não é possível admitir que seja para levar vantagem”.

O deputado Luiz Paulo (PSDB) afirmou que a prática não é uma novidade. “Já vi acontecer antes. Mas é o Ministério Público que deve investigar isso. Há de se separar o joio do trigo. Agora, se em algum gabinete existe repasse de assessores para o seu deputado, isso é crime de peculato”, completou. Todavia, Luiz Paulo fez questão de lembrar que mesmo sendo adversário político de Flávio Bolsonaro, ele sempre o viu como um político honesto. “Se esse caso for apurado e provada a culpa, será uma surpresa”, disse.

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Flávio diz que não houve irregularidade (Foto: Fátima Meira/AE)

Para o deputado Flávio Serafini (PSOL), “é importante que as investigações mostrem se há repasses de dinheiro para o parlamentar”. “É inaceitável que laranjas sejam usados para fazer desvios de recursos públicos para quem quer que seja”, acrescentou Serafini.

Uma análise na movimentação financeira de Fabrício de Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro na Alerj, mostra indícios de que pelo menos uma funcionária pode ter depositado em sua conta o equivalente a quase tudo que recebeu na Casa no período investigado pelo Coaf. Foi esse o caso de Nathalia de Queiroz, filha do ex-assessor que repassou ao pai R$ 97.641,20, o que seria 99% dos rendimentos mensais, afirma levantamento do jornal “O Estado de S. Paulo”. No entanto, como não há dados sobre a movimentação financeira total de Nathalia, não é possível dizer com certeza que o dinheiro teve como origem somente os pagamentos da Alerj.

Nathalia trabalhou na Alerj de 2007 a 2016. Depois foi nomeada como assessora no gabinete parlamentar do hoje presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL). Ela e o pai foram desligados no dia 15 de outubro. Oficialmente, o motivo foi a aposentadoria de Queiroz como PM. A

“Folha de S. Paulo” mostrou que Nathalia, enquanto era funcionária, trabalhava como personal trainer no Rio.

Outra servidora que repassou a Queiroz grande parte do que recebeu foi Márcia Oliveira de Aguiar, mulher do ex-assessor. Os valores somam R$ 52.124,00. Márcia transferiu porcentuais que equivalem de 31% a 46% do que recebeu por mês no período. Luiza Souza Paes, também servidora, fez transferências equivalentes a porcentuais que variam de 24,8% a 33,5% do salário no período. Sua renda, segundo o Coaf, era de R$ 3.479 mensais e a transferência média era de R$ 863,53. Já Jorge Luís de Souza, que tinha salário bruto de R$ 5.486,76, fez depósito mensal médio de R$ 1.573,46 – porcentuais respectivos de 7,69%, 28,67% e 32,46%. O “Estadão” mostrou que 57% dos depósitos feitos na conta de Queiroz ocorreram no dia do pagamento dos salários na Alerj no período, ou até três dias úteis depois.

Em manifestação pelo Twitter, o ex-presidente Fernando Henrique afirmou lamentar as “pedras lançadas” contra o futuro governo de Jair Bolsonaro e afirmou que, sem credibilidade, não será possível reconstruir o País. “Diariamente há pessoas acusadas de corrupção ou mal uso de dinheiro público. Lamento que antes de começar o novo governo pedras sejam lançadas. É preciso verificar, antes de condenar, mas sem confiança e credibilidade impossível reconstruir o País, como a maioria do povo deseja”, disse.