Marisa Letícia: a doação, a morte e a comoção num país mergulhado na crise

A ex-primeira-dama Marisa Letícia simbolizou a própria entrega, a própria doação, quando em vida. E mesmo após a morte, doou o seu próprio corpo.

Quando seu marido, Luiz Inácio Lula da Silva, se tornou presidente, doou-se integralmente, dedicando-lhe muito mais do que o companheirismo das esposas. Dedicando-lhe sobretudo o apoio, o suporte, a presença constante e infalível em todas as horas. 

A morte de Dona Marisa chega num momento de profunda ebulição política no país. O clima de tensão e expectativa com a crise que se instala nos remete aos obscuros tempos de Getúlio Vargas, quando Poderes agiam com pressão, atingindo o filho e o irmão do então presidente da República. Acuado e sem conseguir reagir, Vargas encontrou no suicídio a única saída.

Depois da morte de Getúlio Vargas, o país viu recrudescer uma grave crise. Café Filho tentou um golpe mas foi posto para fora. O presidente da Câmara, Carlos Luz, assumiu o poder, sendo em seguida substituído pelo 1º vice-presidente do Senado, Nereu Ramos. A vida política brasileira começou a se desorganizar perigosamente. Juscelino Kubitschek chegou à presidência, e governou com a forte oposição de líderes reacionários.

A corrupção, naquele momento, não tinha as proporções que têm hoje. Mesmo assim, o presidente Jânio Quadros, que substituiu JK, falava em "varrer" o país. Renunciou. João Goulart chegou à presidência. Depois, todos sabem o que aconteceu.

A forte instabilidade política que atingiu o Brasil após a morte de Getúlio Vargas trouxe uma grave crise. Mas vale lembrar que, naquela época, o país tinha 60 milhões de habitantes, em sua maioria pobres conservadores.

Hoje, o país tem 200 milhões, dos quais 150 milhões são pobres, e não têm um perfil conservador. Pelo contrário.

Como essa massa vai reagir assistindo à atual instabilidade política, ao caos financeiro, aos escândalos da corrupção na elite, ao desemprego galopante e, agora, à comoção de uma morte no coração da crise?