MUNDO
Na ONU, Lavrov defende a reforma do Conselho de Segurança e cita apoio à candidatura do Brasil
Por JB INTERNACIONAL com Sputnik Brasil
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Publicado em 26/09/2026 às 18:36
Alterado em 26/09/2026 às 18:36
O chanceler Lavrov, da Rússia, discursou na Rússia neste sábado Foto: Sputnik
O Ocidente está colocando em risco a vida de bilhões de pessoas em todo o mundo, agindo de forma aventureira e imprevisível, afirmou o chanceler russo, Sergei Lavrov, no debate sobre políticas gerais da 81ª sessão da Assembleia Geral da ONU, neste sábado (26).
O diplomata disse que uma condição para a resolução da situação em torno do estreito de Ormuz é a restauração da confiança entre os países árabes e o Irã.
"Acreditamos que o estabelecimento da confiança nas relações entre os Estados litorâneos do golfo [Pérsico], os países árabes e o Irã, é uma condição necessária para a resolução da crise", disse Lavrov.
Ele também mencionou a operação militar especial da Rússia na Ucrânia, afirmando que Moscou pretende levar a missão até o fim e que as ameaças à segurança da Rússia serão eliminadas independentemente das circunstâncias.
"Isso acontecerá apesar de quaisquer circunstâncias, inclusive da incapacidade da atual liderança da organização mundial de assumir a única posição correta na situação com a Ucrânia, uma posição que defenda os princípios da Carta da ONU, não seletivamente, mas em sua totalidade e em sua interconexão", enfatizou.
Panorama internacional
O chanceler destacou que a Ucrânia está violando os princípios fundamentais da Carta da ONU, como o respeito aos direitos humanos.
"O regime ucraniano viola abertamente um princípio fundamental da Carta da ONU, que é o respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais de todos, sem distinção de raça, sexo, idioma ou religião", disse Lavrov.
Ele frisou que a Europa está fazendo tudo o que pode para atrapalhar as negociações com a Ucrânia e que o Ocidente continua a armar o regime de Kiev.
"O Ocidente está fornecendo armas ao regime ucraniano, ajudando Kiev a lançar drones e mísseis contra civis e infraestrutura civil da Rússia."
Lavrov frisou que países do Sul Global e do Leste estão se afirmando como centros soberanos de desenvolvimento, assumindo a responsabilidade pela segurança em suas regiões e demonstrando compromisso com o direito internacional, rejeição a pressões externas e o desejo de prosperidade para todos os Estados, e não apenas para alguns poucos privilegiados.
"Essa filosofia construtiva também fundamenta a política externa russa, ela é compartilhada por nossos muitos parceiros que comungam dos mesmos ideais e constitui a base da cooperação no âmbito da Comunidade de Estados Independentes, da Organização para Cooperação de Xangai, do BRICS e de outros agrupamentos que representam a maioria global", afirmou o chanceler.
No entanto, ele destacou que isso não agrada a todos, e que a minoria ocidental, que dominou durante cinco séculos explorando os recursos alheios, persiste em suas tentativas de manter privilégios e impor suas regras a todos os demais.
"O Ocidente recorre cada vez mais à força bruta, age de maneira imprevisível e imprudente, e coloca em risco a vida e o bem-estar de milhões, se não bilhões, de pessoas em nosso planeta compartilhado. Como afirmou o presidente russo [Vladimir] Putin, e cito: 'a ditadura de uma única potência hegemônica saiu de controle e tornou-se simplesmente perigosa para aqueles que a cercam'".
O chanceler acrescentou que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) também tenta estender sua influência destrutiva para outras regiões.
"Uma paz duradoura só poderá ser assegurada quando a perigosa rivalidade entre as maiores potências mundiais chegar ao fim. Isso só será possível com base na estrita observância da Carta da ONU e do princípio da segurança igual e indivisível", disse o chanceler.
Ele destacou que esse princípio significa recusar-se a garantir a segurança de um Estado em detrimento da segurança de outros.
"Isso diz respeito, em primeiro lugar, à OTAN, que tenta expandir sua influência destrutiva muito além dos limites geográficos de sua área de responsabilidade, incluindo o Sudeste Asiático e o Nordeste Asiático."
Lavrov destacou que na próxima semana, em 1º de outubro, completará 80 anos desde a conclusão do Tribunal Militar Internacional de Nuremberg, que condenou de forma severa e inequívoca os criminosos nazistas e situou a ideologia misantrópica do nazismo fora dos limites tanto da lei quanto da moralidade.
No entanto, disse o chanceler, as lições de Nuremberg não foram, de forma alguma, aprendidas por todos. Lavrov observou que, a julgar pelas declarações de seus representantes, as elites governantes de muitos países da União Europeia estão claramente infectadas pelo vírus da superioridade racial.
"Elas nutrem ideias extremistas e russofóbicas e condescendem com os líderes do regime ucraniano enquanto estes homenageiam, em Kiev, criminosos de guerra empedernidos e colaboradores nazistas cujas mãos estão manchadas até os cotovelos com o sangue de russos, judeus, bielorrussos, ucranianos e pessoas de outras nacionalidades."
Ele frisou que quase todo o Ocidente vota, no mesmo plenário onde está ocorrendo a Assembleia, contra a contra a resolução russa que condena a glorificação do nazismo.
"Isso não nos surpreende. Contudo, gostaria de enfatizar que os resultados da Segunda Guerra Mundial constituem a base da ordem mundial do pós-guerra e estão consagrados na Carta da ONU. Ao ratificarem esse documento, os antigos Estados do Eixo reconheceram sua responsabilidade histórica pelo sofrimento incalculável infligido ao mundo pelas ideologias e práticas nazistas."
Ele acrescentou que, enquanto os olhos se fecham vergonhosamente para as as manifestações cada vez mais flagrantes do nazismo ucraniano, os próprios fundamentos da ordem mundial centrada na ONU estão sendo postos em risco.
"Desconsiderando a responsabilidade da Alemanha nazista pelo genocídio do povo soviético e sem qualquer constrangimento quanto ao papel da República Federal da Alemanha como principal patrocinadora do regime nazista em Kiev, o chanceler [Friedrich] Merz declara a necessidade de transformar a Alemanha, mais uma vez, na principal potência militar da Europa. Será que em Berlim compreendem o que esse 'mais uma vez' implica? Será que se dão conta de aonde isso pode levar? As lições da Segunda Guerra Mundial não ensinaram nada?"
O chanceler abordou ainda as ações dos Estados Unidos na América Latina. Ele sublinhou que a Rússia pede a libertação imediata do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores, sequestrados e presos em uma ação militar norte-americana.
"Insistimos na libertação imediata do líder venezuelano e de sua esposa, e na não repetição de tais excessos no futuro", disse Lavrov.
Ele também denunciou a agressão contra Cuba, afirmando que a ilha enfrenta uma agressão multidimensional por parte do governo dos Estados Unidos, uma hostilidade permanente, abusiva e flagrante que já dura sete décadas.
"Reafirmamos nossa solidariedade ao povo e ao governo cubanos. Exigimos veementemente o levantamento do bloqueio contra a ilha da liberdade, a eliminação de todas as restrições ao comércio com Cuba e a remoção do país da lista, há muito extinta, de Estados patrocinadores do terrorismo."
Lavrov advertiu que uma responsabilidade especial também recai sobre a ONU, dado o rápido desenvolvimento das tecnologias de inteligência artificial. Ele apontou que regras universalmente aceitas para o seu uso só podem ser formuladas em pé de igualdade, com a participação de todos os países.
"Consideramos o lançamento de um diálogo global sobre a governança da IA e de um grupo científico internacional independente sobre IA como passos na direção certa. A iniciativa apoiada pela Rússia, proposta pela República Popular da China, de estabelecer uma Organização Mundial de Cooperação em IA segue o mesmo caminho. ‘
Ele destacou que, em meados do século XX, a União Soviética ajudou os povos da África, da Ásia e da América Latina a se libertarem das amarras da dependência colonial, e disse que uma maior democratização das relações internacionais é impossível sem a erradicação das práticas neocoloniais, que permanecem por demais visíveis.
"Um marco significativo nesse caminho foi a resolução da Assembleia Geral da ONU que declarou o dia 14 de dezembro como o Dia Internacional contra o Colonialismo em Todas as Suas Formas e Manifestações. Aguardamos com expectativa receber defensores da luta contra as práticas neocoloniais modernas, vindos de todas as nações, na primeira assembleia global do movimento internacional interpartidário pela liberdade das nações. Essa assembleia ocorrerá na Rússia nos próximos meses."
Lavrov abordou a questão da Palestina, alertando que o agravamento da situação pode, em breve, tornar impossível a solução de dois Estados.
"Estamos convencidos de que chegou a hora de resolver o principal problema do Oriente Médio: garantir a criação de um Estado palestino, com base em inúmeras decisões da ONU. Há quase um ano, o Conselho de Segurança, por iniciativa dos Estados Unidos, aprovou um plano de paz para a Faixa de Gaza, mas a paz ainda não chegou."
Ele ressaltou que a situação também está se deteriorando na Cisjordânia, onde Israel está expandindo suas atividades de assentamentos.
"E se isso continuar, a criação de um Estado palestino será impossível. Simplesmente não haverá espaço para isso."
Lavrov destacou a importância da reforma no Conselho de Segurança da ONU, afirmando que a Rússia defende, exclusivamente, uma maior representação para a Ásia, a África e a América Latina, e apoia as candidaturas do Brasil e da Índia a assentos permanentes. Ao mesmo tempo, ele ressaltou que a Rússia atende aos interesses do continente africano em consonância com o consenso alcançado em Ezulwini, que reforçou a necessidade de reforma no Conselho, e na Declaração de Sirte.
"Ao conduzir sua política externa, a Rússia trabalha para melhorar a situação global em coordenação com nossos aliados e parceiros estratégicos, inclusive no âmbito do BRICS, da OCX, da União Econômica Eurasiática, da Comunidade de Estados Independentes e da Organização do Tratado de Segurança Coletiva. Propomos uma agenda baseada na unidade e em ideias concretas de projetos."
Bilateral com homólogo da Alemanha
Antes do discurso, Lavrov teve uma bilateral com seu homólogo alemão, Johann Wadephul, na qual foram discutidas as relações entre Rússia e Alemanha e a situação na Ucrcânia. A representante oficial do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, disse que o encontro entre os dois ocorreu por iniciativa da Alemanha.
O encontro foi o primeiro de Lavrov com um chefe do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha desde 2022, quando Annalena Baerbock ocupava o cargo.
Zakharova criticou a postura de Wadephul na reunião, afirmando que ele "suprimiu vergonhosamente" o relatório do Tribunal Penal Internacional (TPI) para Crimes de Neonazistas Ucranianos sobre o incidente de Bucha.
Ela disse que o relatório, intitulado "Herdeiros de Goebbels: A Falsificação dos Eventos em Bucha e a Encenação Sangrenta do Regime de Kiev", estava na mesa de negociações dos chefes dos Ministérios das Relações Exteriores da Rússia e da Alemanha .
"Wadephul cobriu o relatório timidamente com um bloco de notas e fingiu não ter notado nada, e a comparação com Goebbels pareceu deslocada. Mas tudo é perfeitamente óbvio para todos, e 'a verdade dói'", escreveu Zakharova em seu canal no Telegram.
Ministros das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, e do Brasil, Mauro Viera, após reunião bilateral em Nova York. 23 de setembro de 2026 - Sputnik Brasil, 1920,
Zakharova também destacou o entusiasmo com que Lavrov foi recebido depois de discursar, e disse que o chanceler, após seus discursos na Assembleia, é tradicionalmente cumprimentado por dezenas de diplomatas com apertos de mão e agradecimentos à Rússia.
"A agitação de sempre: Sergei Lavrov é recebido na saída do plenário da Assembleia Geral por dezenas de diplomatas que querem apertar sua mão e agradecer à Rússia", escreveu ela.
Lavrov concedeu uma coletiva a repórteres após o discurso na qual disse estar surpreso com o fato de o direito à autodeterminação nas Nações Unidas se aplicar à Groenlândia, mas não à Crimeia.
"Perguntei a [António] Guterres, com quem me encontrei anteontem, por que não se menciona a opção do direito à autodeterminação em relação à Ucrânia, ao menos uma opção? Ele respondeu: 'Estamos pensando nisso há muito tempo, e são coisas diferentes.' Em que são diferentes?", questionou o chanceler.
Ele enfatizou que a Rússia espera que o novo secretário-geral da ONU represente os interesses de toda a humanidade.
"Esperamos que o novo secretário-geral continue a representar os interesses de toda a humanidade e que cumpra todos os critérios aprovados na Carta da ONU, incluindo a imparcialidade e o desempenho das funções do principal responsável pela administração da organização."
Sobre a questão em Ormuz, ele disse que Moscou considera o memorando assinado entre Estados Unidos e Irã em Islamabad um acordo justo que poderia ter sido devolvido.
"Quanto à rejeição de Washington ao plano de sete dias proposto pelo Irã, esta não é a primeira vez. Houve o Memorando de Islamabad, assinado no mais alto nível. Portanto, isso não é novidade."
O chanceler afirmou que não ouviu nada de novo durante sua reunião com Wadephul. Segundo ele, a sensação foi de que a Alemanha espera que a Rússia faça algumas concessões em relação à Ucrânia.
"Quando nos encontramos, pedi a ele que me explicasse o que havia elaborado. Ele pegou algumas anotações e leu um texto que reproduzia integralmente o que a Alemanha, por meio de seus líderes, declara oficial e publicamente todos os dias. Não vi nada de novo com isso", disse Lavrov.