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Ataque terrorista em escola deixa ao menos 37 mortos em Uganda

Atentado, atribuído ao grupo armado congolês ADF, é o pior realizado no país africano desde o final de 2021

Por Gabriel Mansur
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Publicado em 17/06/2023 às 12:03

Alterado em 17/06/2023 às 12:26

Mais de 37 pessoas morreram em ataque de grupo rebelde na Uganda Foto: Reprodução/Twitter/@meizonradio

Pelo menos 37 pessoas foram mortas, a maioria estudantes menores de idade, e outras oito ficaram gravemente feridas, em decorrência de um ataque orquestrado por militantes de um grupo extremista a uma escola secundária no oeste de Uganda, de acordo com as autoridades locais.

A imprensa local aponta que o número de vítimas pode chegar a 41. No balanço anterior, as autoridades reportaram 25 mortos. Esse é o atentado terrorista mais mortal no país africano dos últimos anos.

“Está confirmado que todos os mortos até agora eram alunos da escola”, disse Joe Walusimbi, comissário do distrito de Kasese, onde fica o colégio, situado a cerca de dois quilômetros da fronteira com a República Democrática do Congo.

De acordo com o porta-voz da polícia local, Fred Enanga, o grupo armado conhecido como ADF (sigla para Forças Democráticas Aliadas), que tem o seu reduto no leste do Congo, atacou a escola na noite de sexta-feira (16). No ataque, um dormitório foi incendiado e alimentos em uma loja foram saqueados. Pelo menos oito pessoas estavam em estado crítico e foram hospitalizadas, acrescentou Enanga.

Autoridades de Uganda disseram que o exército e a polícia estão perseguindo os agressores em direção ao Parque Nacional Virunga, uma densa floresta no Congo vizinho, lar de gorilas da montanha em perigo de extinção. O porta-voz das Forças de Defesa do Povo de Uganda (forças armadas), Felix Kulayigye, disse que os agressores podem ter sequestrado outras seis pessoas.

O ataque, atribuído a cerca de cinco militantes, é o pior realizado pelo grupo em Uganda desde o final de 2021, quando bombistas suicidas provocaram explosões coordenadas na capital, Kampala, que mataram três pessoas, gerando receios sobre a abrangência do grupo e representando um desafio difícil para as autoridades ugandesas.

Desde então, o governo de Uganda, em conjunto com o governo congolês, lançou uma ofensiva contra as Forças Democráticas Aliadas com o objetivo de erradicar o grupo de suas bases no leste do Congo.

Os dois governos têm divulgado poucos detalhes sobre a campanha militar, dizendo apenas que ataques aéreos e de artilharia enfraqueceram o grupo, que já jurou lealdade ao Estado Islâmico.

No entanto, observadores regionais duvidam do sucesso da operação, chamada Shujaa, ou "Bravura", afirmando que as Forças Democráticas Aliadas continuam a causar estragos no leste do Congo, uma região rica em minerais onde mais de 100 grupos rebeldes têm promovido ondas de massacres e destruição há décadas.

Especialistas também afirmam que o presidente de Uganda, Yoweri Museveni, que está no poder há quase quatro décadas, está usando a operação para fortalecer sua imagem e proteger os campos de petróleo que estão sendo explorados perto da fronteira com o Congo.

O ataque, que começou por volta das 23h30 de sexta-feira, foi amplamente condenado por parlamentares, partidos de oposição e embaixadas ocidentais, que pediram ao governo que adote medidas para evitar tais ações no futuro.

Na tarde de sábado, fotos e vídeos compartilhados nas redes sociais e em canais de televisão mostraram uma forte presença militar na área enquanto trabalhadores humanitários respondiam à cena do ataque. O General Kulayigye disse que o chefe das forças de defesa do país e o comandante das forças terrestres eram esperados para visitar a área.

A Escola Secundária Mpondwe Lhubiriha é uma escola privada localizada a poucos quilômetros da movimentada fronteira com o Congo. A escola está a cerca de 320 quilômetros de Kampala, capital de Uganda, em uma comunidade agrícola pobre, onde muitas famílias cultivam e vendem colheitas, incluindo milho e mandioca.

Muitas escolas em Uganda, tanto públicas quanto privadas, possuem dormitórios para estudantes internos. Fotos e vídeos da escola no sábado mostraram as janelas e os telhados de zinco dos dormitórios enegrecidos pela fuligem do incêndio.

O Major General Dick Olum, comandante da operação militar de Uganda no Congo, disse em uma reunião com os moradores que membros rebeldes passaram duas noites na cidade antes de atacar a escola. Ele afirmou que alguns estudantes foram queimados ou mortos a golpes, e que os patologistas do governo realizarão testes de DNA para identificar os corpos carbonizados.

O governo enviou aviões para buscar aqueles que foram sequestrados, acrescentou Olum. Ele também pediu aos moradores da cidade que permaneçam vigilantes e relatem qualquer coisa suspeita. O fato de esse ataque ter acontecido, disse ele, "é algo muito vergonhoso".

Oposição radical

As Forças Democráticas Aliadas foram estabelecidas no leste do Congo em 1995 por dois grupos opositores ao governo de Museveni, um deles uma seita islâmica. O grupo também recebeu apoio regional de líderes de outros países, incluindo Sudão e Congo, que buscavam minar o governo de Museveni.

Em 1998, rebeldes afiliados ao grupo atacaram uma faculdade em Uganda ocidental, matando 80 estudantes e sequestrando outros 100. Mas a partir de 2011, grandes ofensivas realizadas por ugandeses, congoleses e forças de paz das Nações Unidas (ONU) enfraqueceram o grupo, fazendo-o recuar para a região montanhosa de Ruwenzori, que faz fronteira com Uganda e Congo.

O ex-líder do grupo, Jamil Mukulu, também foi capturado na Tanzânia em 2015 e depois extraditado para Uganda.

No entanto, o grupo continuou a realizar ataques ainda mais violentos. Nos últimos anos, recrutou novos membros, incluindo crianças; atacou forças de paz; realizou fugas de prisão; e cometeu violência sexual, de acordo com as ONU.

O grupo também jurou lealdade ao Estado Islâmico, que em 2019 reivindicou seu primeiro ataque no Congo. Em 2021, os Estados Unidos designaram a FDA como uma organização terrorista e ofereceram uma recompensa de até 5 milhões de dólares (cerca de R$ 24 milhões) por informações sobre o novo líder do grupo, Seka Musa Baluku.

No entanto, embora haja algumas conexões financeiras e semelhanças ideológicas entre as duas entidades, observadores regionais e especialistas da ONU afirmam que não há "evidências conclusivas" de que o Estado Islâmico comande ou controle as operações do grupo.

O atentado desta sexta, segundo observadores, mostrou como o grupo depende de espontaneidade e táticas de guerrilha para realizar ataques letais.

"Além disso, a capacidade das F.D.A. de se fundir com comunidades civis permite que elas se escondam quando necessário e reapareçam quando as condições forem mais favoráveis", disse Michael Mutyaba, pesquisador e analista político ugandense. "Isso explica por que o grupo está se mostrando resiliente".

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