La Estrada 

Estávamos todos em Botafogo, planejando ver a abertura das Olimpíadas na televisão, em Petrópolis.

Achei que o trânsito não ia permitir pois, hoje em dia, ele não permite  nada,  por mais que se saia cedo de casa, acontece um imprevisto pra nós e pra ele e tem-se que desprogramar tudo o que fora programado antes, deixando a vida nos levar. Vida leva eu...

Dessa vez foi uma carreta que rolou estrada abaixo, exatamente como aconteceu conosco umas duas semanas atrás. O filme se repete. Não sei se por falta de organização, gente demais nas ruas, carros aos borbotões nas estradas, enfim, tudo isso junto.

Exatamente como da outra vez, as pessoas foram saltando dos carros, na delas, perguntando o que aconteceu uns aos outros e cada um dava uma notícia sobre o caminhão caído na estrada, falando do motorista que teria morrido, não teria, só estava machucado, não estava, até que o tempo foi passando e as notícias sobre a vida do motorista começaram a fazer parte de um pretexto para uma espécie de coquetel. Começaram até a  tomar cervejas e contar fatos parecidos com o que estava acontecendo e acabou todo mundo rindo muito das piadas que surgiam. À essa altura, o motorista do caminhão já tinha morrido e ressuscitado várias vezes em histórias contadas, onde umas acabavam bem, outras mal. Ouvia-se gargalhadas, pessoas ligaram os rádios do carro e só faltava mesmo dançarem. O acidente foi virando  uma festa pra quem estava ali e um problema  pra quem ia chegando e olhando a festa como se fossem penetras, até que aos poucos, foram se enturmando.

Então começamos a pensar no horário da abertura das Olimpíadas, na Inglaterra, que já estava próxima e de repente a festa acabou com as pessoas voltando aos seus carros, olhando os relógios e encerrando o papo sobre o acidente, já que o trânsito começou a andar devagarinho. Uns falavam das Olimpíadas da China, apostando que ela ganharia em matéria de beleza, com suas danças, cantos, e cenários.

Entramos também no carro, sem parar na Pavelka, acho que pela primeira vez na minha vida, depois da época que se frequentava o Alemão, pra não perder a festa na televisão.

Chegamos em Petrópolis, pusemos roupas quentes e confortáveis, livrei-me do meu jeans apertado e dos meus tênis amarrados, coloquei calça de lã e havaianas, e bem antes da hora marcada, já estávamos sentados em nossas poltronas em frente à TV.

Então conseguimos ver a abertura da festa, com música, dança, luzes, experts falando sobre agricultura em Londres, sobre a engenharia futurista debaixo da enorme bandeira da Grã-Bretanha e assistindo a pedaços de shows de vários países por nomes que iam de A a Z.

Vimos a tromba da rainha pensando no tempo em que teria de ficar ali fazendo o seu papel, aquele eterno número de rainha, feito desde pequena, dessa vez com um chapeuzinho menor que os outros enormes, ao lado de um príncipe Charles bem mais à vontade do que ela, quando de repente, não mais que de repente, a luz apagou no condomínio. Zero luz. Petrópolis totalmente às escuras. Os vizinhos se telefonando, xingando os síndicos, os pedreiros. Ninguem tinha luz. O problema era do condomínio que foi arrasado, alguns botando a culpa em empregados, outros numa vizinha metida que fazia reformas sem perguntar a ninguém.

Procuramos isqueiros, lanternas, fósforos, mas essas coisas não existem mais. Se já sumiam da nossa vista como os celulares de hoje em dia, imagine hoje, quando o seu dono tem mais de cem coisas pra fazer ao mesmo tempo que naquela época. Isqueiros e fósforos cederam lugar a microondas e acompanharam o enterro de todos os fumantes aos quais pertenciam. 

Graças a Deus ainda consegui ver o Mick Jagger, mas a Marina Silva e o Paul Mc Cartney ficaram pra próxima, daqui a quatro anos.

Então o cachorro da empregada começou a passar mal. Levamos ao veterinário, onde não tinha TV mas tinha luz.

Então a veterinária me perguntou qual era a raça dele. 

Respondi que era um vira-lata e ela replicou:

- Ah, não fala assim, coitadinho!

- Ué, respondi, mas ele não é vira-lata?

- Não. Ele é um SRD.

- SRD? Perguntei, espantada.

- Sem raça definida.

Então esperamos o SRD fazer o exame e descobrir que ele tinha comido um osso de churrasco que travara o seu estômago. Esperamos ele tomar remédio, e fomos pra casa dormir depois desse inesperado programa na Serra de Petrópolis.