Embranqueceram o Saci Pererê na final do Gauchão

A figura brincalhona e repleta de traquinagens do Saci Pererê faz parte do imaginário folclórico do Brasil. Surgido em meio à cultura indígena e influenciado pela cultura africana, o menino negro de uma perna, que pula em cima do redemoinho,virou personagem de livros, seriados e filmes.  O Saci Pererê ainda é o mascote do time Sport Club Internacional de Porto Alegre, clube que conta com uma das torcidas mais tradicionais do futebol em nosso país e que foi mais uma vez campeão do gauchão na ultima rodada dos estaduais (8/5).

Uma pena é que essa mesma torcida gaúcha viu seu mascote ser embranquecido pela RBS, afiliada da rede Globo na região, ao anunciar o título do Internacional do campeonato gaúcho. A emissora utilizou a imagem de um Saci branco no lugar da tradicional imagem do único mascote negro dos grandes clubes brasileiros. 

“Não existe racismo no Brasil”, “isso é um vitimismo”, “tenho até amigos negros” dentre outras, são frases extremamente populares que mais uma vez desconstruímos. O racismo escancarado sempre omitido pela emissora, afiliada da Globo, embranqueceu o Saci! Não será isso racismo? Não será isso uma tentativa de segregar a nossa cultura? 

Assim como embranqueceram o Saci, fizeram o mesmo com as artes, a dança, a estética, a música e tantas outras expressões do cotidiano folclórico e cultural do povo negro brasileiro. 

O Saci é preto, tem um gorro vermelho e um cachimbo, típico da cultura africana e PONTO. Mudar a cor do Saci é projetar uma ideia de padrão, do que serial "ideal" do ponto de vista de uma homogeneidade, proposto por um a elite política e econômica do país, que possui privilégios e interesses bem estabelecidos desde a colonização. 

A tentativa de manter os padrões culturais ocidentais do branco de olho azul e cabelo liso (eurocentrado) é o mesmo que determinar o lugar dos ‘fora do padrão’. Assim funciona as relações trabalhistas (branco chefe x preto empregado), funciona as dinâmicas religiosas (candomblé como uma religião do mal, bruxaria, macumba x religiões cristãs), é falar que o preto, pobre e favelado é o bandido, o traficante, etc..

A deputada federal Manuela Dávila (PC do B) foi uma das pessoas que protestaram nas redes sociais, que somado a milhares de comentários, denunciaram o racismo presente na transmissão da final do Gauchão. Em sua conta no Facebook, a deputada postou a foto da transmissão e a mensagem: "O Saci é o único mascote negro dos clubes de futebol. Por que ele ficou branco na comemoração do hexa campeonato do meu colorado?"

O racismo não é escancarado, ele rasteja vergonhosamente até os dias de hoje de forma velada, respira firme e forte naquela piadinha "inofensiva" ou no embranquecimento que a Globo inventou do único mascote negro do país.

* Walmyr Júnior é morador de Marcílio Dias, no conjunto de favelas da Maré, é professor, membro do MNU e do Coletivo Enegrecer. Atua como Conselheiro Nacional de Juventude (Conjuve). Integra a Pastoral Universitária da PUC-Rio. Representou a sociedade civil no encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ