Qual o papel da mídia? Provocar o medo ou ampliar o discurso da impunidade? 

Falar sobre o papel e a influencia da mídia hoje é um assunto muito delicado. Parto do principio de que, como colunista, também represento uma significativa parcela daquilo que a mídia fala. Porém, se é para expor as contradições dos veículos de comunicação, que tal crítica comece por nós mesmos. 

Vimos na última semana os veículos de comunicação se digladiando para ver quais verdades eram as mais lida e mais absolutas. Estou me referindo às reportagens sobre caso do médico assassinado na Lagoa Rodrigo de Freitas, cartão postal e um dos palcos da próxima olimpíada.   

De um lado vimos o esforço do ‘poderoso jornal’ em criminalizar um adolescente que se declarou inocente do crime, mas que já tinha cometido furtos no local e tinha uma ficha suja extensa. Outro ‘gigante das mídias’ usou o caso para por em questão a redução da maioridade penal, relatando que se esse menor já tivesse atrás das grades nada disso teria acontecido. Outro ainda apontou que a raiz do problema era a ausência de família e escola, considerando esses fatores como uma tragédia que infelizmente teve como resultado outra tragédia. Esse pelo menos acertou. 

O que fica nítido é o covarde papel de alguns veículos da mídia que, ao construírem conspirações mitológicas para justificar um possível cenário de medo e terror, justificam a retribuição da violência para sanar o sentimento de impunidade. Analisando o tema citado e ao se debruçar sobre as estatísticas do ISP (Instituto de Segurança Pública) do Rio de Janeiro, veremos que os crimes com arma branca reduziram 25% em comparação com o mesmo período no ano de 2014.

O que é curioso na volumosa repercussão do caso da Lagoa é a ênfase no assassinato de um médico, branco, ciclista, residente da Zona Sul. Há exatamente uma semana o médico Jaime Gold, de 57 anos, foi esfaqueado ao ter sua bicicleta roubada. Curioso que desde a semana passada não há um telejornal, um jornal impresso, uma emissora de rádio que não passou pelo menos algum caso envolvendo violência com facas e que criminaliza jovens e adolescentes pelos respectivos crimes. 

Qual a resposta do ouvinte, leitor ou telespectador que tem tido acesso a esses veículos de comunicação? É simples, o cidadão incorpora o discurso de ódio e a cada novo noticiário maior fica o medo, assim como o sentimento de impunidade. A única saída para essa população amedrontada seria ampliar o sistema penal e excluir do convívio social qualquer indivíduo que passe a sua barreira da individualidade. 

E o que aconteceu? Por que todo esse alarde este ano e não no ano passado quando a violência por crimes de facas era maior? Com certeza não é a vida do pobre da favela que se envolveu em uma briga e tomou uma facada. Ou até mesmo o assalto seguido de morte na Baixada Fluminense também cometido por uso de arma branca. O que interessa que um médico, branco, da Zona Sul, foi assassinado em sua redoma de vidro chamada Lagoa Rodrigues de Freitas. 

Será que a diferença não está na empatia? Não será um excesso de raiva da mídia que por ventura perdeu um dos seus pares? Não será os nossos grandes jornais a voz da Zona Sul que perdeu mais um ciclista? Não quero de forma alguma ridicularizar o fato. Pelo contrário. Me solidarizo com a família que perdeu um bom pai e um herói que diariamente salvava vidas e ajudava pessoas. 

Quero apenas mostrar que o papel dos veículos de comunicação é comunicar os fatos com veracidades e sem sectarismos. Escrevemos nesta coluna para dar voz às favelas que tanto são silenciadas pela mídia dos grandes senhores da casa grande. Dar voz a um povo que é esquecido pelo Estado e dia após dia é criminalizado. Não podemos esquecer a recente fala do Secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, que “um tiro em Copacabana é uma coisa. Na Favela da Coreia é outra e no Complexo do Alemão é outra”. 

O médico Jaime Gold, assassinado na Lagoa Rodrigues de Freitas, não poderia ser a maioria da população carioca, mas poderia ser um jornalista, um deputado, um empresário, enfim, todos estes que querem o controle da sociedade e também manipular as informações para culpar o pobre e o favelado. O problema é que a crise é sistêmica e o que está insustentável está sendo encarado como a única solução. Será que mais uma inútil lei penal resolverá nossos problemas ou aumentará o clima de instabilidade que vivemos?

* Walmyr Júnior é professor. Representante do Coletivo Enegrecer como Conselheiro Nacional de Juventude - CONJUVE. Integra Pastoral da Juventude e a Pastoral Universitária da PUC-Rio. Representou a sociedade civil no encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ.