Peregrinos destacam os pontos positivos e negativos da JMJ 

A emoção sempre fica em primeiro lugar. Porém, os problemas na organização também são lembrados

Ao fim da Jornada Mundial da Juventude, os milhões de peregrinos levarão para casa as lembranças e experiências em participar do maior encontro internacional entre jovens católicos do mundo. A emoção em poder ver o Papa Francisco de perto é indescritível para a maioria dos presentes, que destacaram o processo de renovação da fé proporcionada pelas missas e discursos. Pela primeira vez na América Latina, o Rio de Janeiro apresentou problemas novos e antigos durante a execução do evento, que devem servir como um alerta para a cidade que se prepara para receber a Copa do Mundo e as Olimpíadas.

Vindos de todos os cantos do Brasil e do mundo, os peregrinos se multiplicaram no cotidiano dos cariocas durante a última semana. Simbolizando a distância continental existente entre o norte e o sul do Brasil, o estudante Roni encarou uma viagem de dois dias e meio de ônibus, de Belém do Pará até o Rio. Com um grupo da Igreja que frequenta, ele ficou hospedado em Realengo, e teve dificuldade com o transporte, pois estava “tudo muito cheio”, como destacou. Independente dos problemas, Roni, que participou de sua primeira jornada, diz que o “sentimento é indescritível, uma emoção muito grande”.

Outros que realizaram uma longa viagem foram Matthias e Cedrick, dois estudantes da Bélgica. Eles que estudam medicina e química, respectivamente, não ignoram seus compromissos com a Igreja, ao organizarem eventos religiosos com crianças durante os finais de semana. Impressionados com a quantidade de pessoas mobilizadas com a JMJ, os belgas, que ficaram alojados na Estácio do Rio Comprido, aprovaram os serviços do Rio, destacando um “transporte organizado e bem informado”, aliado com o grande trabalho dos voluntários. Durante todas as atividades, um canal de televisão da Bélgica acompanhou o grupo de mais de 150 pessoas, que, animados com a cidade, lamentaram terem perdido a oportunidade de conhecer Guaratiba.

Além de jovens, os padres de diversas regiões também se esforçaram para participar do evento, como é o caso de Luciano Macedo, de Londrina. Participando de sua primeira jornada, ele estava emocionado com a experiência, mas fez questão de lamentar os problemas na organização, após ter enfrentado sete horas para pegar seu kit e outras três para entrar no metrô.  Mesmo assim, o padre destacou os aprendizados que levará para casa:

“A experiência foi muito boa. É um desafio grande que faz com que as pessoas demonstrem mais fé. O convívio em grupo, pacificamente, não pode ser egoísta. Eu realizei catequeses e atendi confissões até no metrô. Deus ainda foi muito bondoso ao nos proporcionar esse dia lindo, após uma semana de muita chuva.”.     

O Instituto Plínio Corrêa de Oliveira, de São Paulo, é um grupo que reúne gente de todo Brasil e ficou conhecido pelas apresentações musicais durante as atividades da jornada, incluindo a caminhada da peregrinação. O objetivo deles, como explica Edson, um dos membros, é realizar uma campanha, através da distribuição de folhetos, com o objetivo de restaurar a ordem na sociedade - “Atuamos mais no campo civil. Precisamos nos defender contra o laicismo e a cristianofobia que vem crescendo no mundo”. Por terem se hospedado no Flamengo, e contarem com locomoção própria, o grupo não teve muitos motivos para reclamar dos serviços da cidade.

Outro que teve mais motivos para celebrar foi o padre Richard Yevchak, da Califórnia, que ficou encantado com os pontos turísticos da cidade. Ele, que visitou o Cristo Redentor e as praias cariocas, se hospedou no bairro do Recreio, com um grupo americano. Apesar de Guaratiba ficar mais perto de onde estava alojado, o padre diz que entendeu e aceitou a mudança do local da vigília, por “não ter muito o que fazer”, como destacou. Mesmo não tendo problemas com o transporte público, o padre chamou a organização do evento de “caótica”, principalmente depois da dificuldade em recolher os kits.

Para Maria Necy, piauiense, mas moradora do Rio de Janeiro há 25 anos, os problemas na cidade durante o evento podem ser uma boa oportunidade para que as autoridades percebam as dificuldades e se preocupem em melhorar. Ela diz que os dois primeiros dias foram muito desorganizados, e que a situação só foi contornada a partir do trabalho dos voluntários, que ajudaram muito com as orientações:

“Nós tivemos muitos problemas durante a JMJ, por isso o carioca parece não estar satisfeito, mas também temos que entender que a cidade está em um processo de transformação para receber os grandes eventos. Mesmo assim, a minha emoção foi muito grande. O Papa traz muitas mudanças através de seus bons conselhos. A juventude tem que aproveitar para levar adiante um desejo maior pela unidade”, disse Necy.

Enquanto a cidade apresenta muitos problemas de mobilidade e serviços públicos, a alegria do povo carioca ainda é capaz de envolver os turistas. É o que aconteceu com o padre Arisóteles, brasileiro, mas que é missionário na Holanda. Ele se diz positivamente surpreendido e parabeniza o Rio de Janeiro pelo evento, principalmente pela disposição dos moradores da cidade:

 “Toda a espontaneidade do povo, a capacidade de se adaptar, é muito lindo. Eu fui muito bem acolhido por todo lugar que passei. A juventude proporcionou um espetáculo de alegria e paz”, destaca.  Liderando um grupo de holandeses alojados no Recreio, o padre diz que a locomoção foi tranquila para eles e que seria “impossível não ter problemas durante a organização, pois se trata de um evento muito grande”.

Nem todos os peregrinos tiveram a oportunidade de participar do evento desde o princípio. É o caso de Mariana, do município de Canaã, Minas Geras. Ela chegou na manhã do sábado para participar somente da vigília e depois retornar no domingo (28). A estudante, que veio com um grupo de 48 pessoas da sua cidade, disse que já sabia das dificuldades que ia encontrar pois ficou acompanhando pela televisão, mas que mesmo assim é compensador:

“Eu estava preparada para ficar no Campo da Fé, mas acabou tendo esta mudança de local. Acho que o evento está mal organizado, eu cheguei às cinco da manhã na rodoviária, mas só consegui chegar agora (16h) na Enseada de Botafogo, fiquei três horas só para pegar meu kit. Outra reclamação que acho que tem que fazer é que falta muito cesto de lixo pelas ruas da cidade, por isso acaba ficando muito sujo. Mas mesmo assim ainda estou muito ansiosa e emocionada, e espero chegar a tempo de ver o Papa”, disse Mariana, que também destacou o trabalho dos voluntários.

Para o padre Ginesson Silva, de Recife, é preciso ressaltar que , apesar das dificuldades, a JMJ do Rio de Janeiro superou a expectativa de público – “Falaram que viriam, no máximo, um milhão de pessoas, mas nós passamos os dois milhões”.  Ele, que está na Paróquia Bom Jesus na Penha, com um grupo de 330 jovens de 14 países chamado “Juventude Dehoniana”, diz que os mesmos tipos de problemas na organização também ocorreram na jornada de Madrid, na qual participou, “com a diferença de que o metrô de lá é bem melhor”, lembrou, bem humorado.

Como pontos negativos, o padre citou a infraestrutura limitada, como transporte e alojamento, mas “Nada muito grave. A locomoção é difícil no início, mas depois a gente pega os macetes”, destacou.  Para ele, a segurança, no geral, foi tranquila e a mudança de local da vigília foi um imprevisto, uma dificuldade resultante da força da natureza, que iria além do poder dos organizadores.

Os voluntários, figuras mais elogiadas pelos peregrinos, talvez são os que demonstrassem mais cansaço ao final do evento, mesmo sem perder a alegria e a emoção pelo trabalho que faziam. É o caso dos estudantes Fabiano, do Rio, Luiz Danilo, de São Paulo, Lucas Menezes, de Cardoso Moreira e Felipe, de Belo Horizonte, todos atuando como socorristas. Eles acabaram se conhecendo no alojamento em que se hospedaram, na Paróquia de Bangu, frequentada por Fabiano.  Após passarem por um treinamento na Uerj, ministrado pela Cruz Vermelha, os jovens ficavam de prontidão durante as atividades. Dizendo que o trabalho era tranquilo, eles lembravam que bastante gente passava mal, com pressão baixa, por ficar muito tempo sem comer.

A oportunidade de conhecer pessoas de todo o mundo é o ponto mais positivo da experiência, para eles. Luiz citou que a troca de cultura vai além do encontro com o Papa, enquanto Lucas dizia que a JMJ é uma inspiração para a vida. Negativamente eles, que precisavam se locomover por diversos pontos da cidade, destacaram o transporte ruim - “É um evento com porte maior que olimpíadas ou copa. A malha férrea e transporte da cidade são insuficientes. Mas, por ser uma peregrinação, muitos relevam, porém os moradores se incomodam.”, explica Fabiano.

A mudança de local da vigília também foi criticada por eles, que lembraram do desperdício do dinheiro no Campo da Fé, e lamentaram o mal planejamento neste quesito. Questionados sobre a vantagem em ser voluntários, eles não tiveram dúvidas:

“Poder ver o Papa de perto, a perna treme, é uma emoção sem igual”, concluíram. 

* Do Projeto de Estágio do Jornal do Brasil