"De luto", Guaratiba conta prejuízo e dispara em Cabral e Paes

Sentada sob um banco de pedra em seu restaurante em Guaratiba nesta sexta-feira, a comerciante Maria Céli estava indignada com o cancelamento da visita do papa Francisco ao bairro da zona oeste do Rio de Janeiro. “Estamos de luto, com a sensação de não termos mais futuro. Sabemos quem são os culpados”, disse ela ao Terra enquanto explicava que reformou o local para dar um ar rústico e atrair peregrinos com refeições baratas em um ambiente informal. Passada a frustração da mudança da vigília e missa de encerramento para Copacabana, os alvos dos moradores de Guaratiba são claros: o governador do Rio, Sérgio Cabral, e o prefeito da cidade, Eduardo Paes.

“Ficamos um ano e meio sem luz e telefone direito, comendo poeira o dia todo, e vimos um desmatamento desnecessário. A gente sabia que não ia dar certo, cada estaca cravada o solo absorvia, de tão úmido. Agora todo mundo desapareceu, a frustração é extrema, e a culpa é do Cabral e do Paes, que tiveram muito tempo para trabalhar e fizeram tudo errado”, criticou Maria Céli.

Na porta de sua casa, uma placa de “alugo casa no período do Papa” era retirada e a mercadoria estocada na manhã de hoje. Ela perdeu ao menos R$ 1 mil, deixando de servir 150 pessoas.

“A frustração não é apenas de negócio, é a expectativa toda que gerou. Queríamos trazer turistas futuramente, mas eles só têm uma ideia de Guaratiba: la-ma-çal. Acabou a possibilidade de turismo”, lamentou o marido dela, Mauro Luís Dourado.

Perto dali, o dono de um minimercado contabilizava os prejuízos em R$ 3 mil com bebidas e comidas armazenadas.

“Investimos para ter um retorno e agora, como faço com as compras encalhadas? O prefeito e o governador pegaram o dinheiro, fizeram um aterramento de qualquer jeito e concluíram o quê?”, questionou Wanderson de Oliveira Rodrigues.

"Papelão mundial"

Coordenando um grupo de 25 pessoas de Minas Gerais, o padre Clésio Ribeiro dos Santos chegou a alugar uma casa em frente ao palco principal do Campus Fidei para ficar o mais próximo possível da vigília. Ele se diz até aliviado com a transferência para Copacabana, pois assim o Brasil não fará “um papelão diante do mundo”.

“Os governos estadual e municipal tiveram dois anos e não foram capazes de preparar um local justo para que pudéssemos celebrar esse momento de modo confortável e tranquilo. Vendo a situação, dei graças a Deus que transferiram para Copacabana, pois seria feio o mundo ver um evento que parece uma mina a céu aberto. Seria um papelão diante do mundo”, afirmou o religioso.

A transferência dos equipamentos do Campus Fidei e dos banheiros químicos começou a ser feita na quinta-feira. Hoje, um dos organizadores do trabalho de remoção, que preferiu não ser identificado, disse que seria praticamente impossível carregar tudo para Copacabana. São 15 postos médicos, 4,4 mil banheiros e 52 torres de som. “Faremos o que dá para fazer, é muito complicado”, salientou ele.

Moradores pedem o Papa

Mesmo cientes de que o prejuízo financeiro é irreversível, a comunidade de Guaratiba ainda mantém a esperança de que Francisco faça uma visita antes de deixar o Brasil.

“Fui impedida de vender meus materiais de construção no meu terreno na última semana e perdi quase R$ 10 mil. É muita decepção, todo mundo contava com a vinda do Papa, desde o começo do ano só se falava nisso aqui. Ainda espero que ele venha e lembre-se da gente de alguma forma”, disse a comerciante Kelly Cristina Pinheiro.

“Como católico, fico entristecido e envergonhado de ver nosso bairro assim. Depois de dois anos de anúncios, o cancelamento foi muito duro. Minha mulher recebeu 17 monges do Rio Grande do Sul na paróquia em que ela trabalha. Eles viriam tomar banho na nossa casa e se arrumar para ver o Papa, e agora nós temos que ir para Copacabana? Ainda espero que ele apareça aqui”, completou Marcos Barros de Amorim, morador de Guaratiba.

O Campus Fidei foi construído em uma área de terra, que precisou passar por terraplanagem e diversas obras para receber os estimados 1,5 milhão de peregrinos.

Na tarde de quinta-feira, Eduardo Paes anunciou que, devido às chuvas que atingiram o Rio de terça a quinta, o evento teria de ser cancelado no local, sendo transferido para a praia de Copacabana. A prefeitura usou recursos próprios para urbanização de vias próximas ao terreno, construção de passarelas e limpeza e dragagem do rio Piraquê. Os custos, porém, não foram revelados.