'Children of the light', um trio fora de série

O quarteto do grande saxofonista-compositor Wayne Shorter, 82 anos, continua a ser ouvido e avaliado pela crítica abalizada como o mais telepático e hipnótico pequeno conjunto de jazz em atividade. Desde2001, quando gravou para a Verve o álbum Footprints live!, logo seguido por Alegria (2002), Beyond the sound barrier (2005) e, mais tarde, por Without a net (Blue Note, 2013).

Este combo não teria direito ao adjetivo excepcional não fossem, é claro, as qualificações dos seus demais integrantes, que assumem – sem qualquer rede de proteção (“without a net”) - os riscos inerentes à criação de uma música sem a habitual lógica das chord changes e da divisão de solos a partir de temas bem definidos. São eles: o pianista Danilo Pérez, o baixista John Patitucci e o baterista Brian Blade.

No decorrer do tempo, os “pupilos” de Shorter - sem deixarem de ser ¾ do Footprints Quartet – lideraram ou colideraram seus próprios grupos, com formações diversas, em clubes, festivais e sessões de estúdio.Mas só agora o time Pérez-Patitucci-Blade gravou, como um trio cooperativo, o primeiro CD, intituladoChildren of the light (Mack Avenue Records).

Trata-se de uma seleção de 11 originais escritos, na sua maioria – a partir da faixa-título de 6m50 - pelo pianista panamenho de 49 anos, dos quais 30 vividos em Boston (Berklee) e Nova York.

Ao comentar a sessão de gravação do novo álbum em trio, Danilo Pérez ressalta que “uma das coisas mais fortes que senti é que, mesmo funcionando sem a presença de Wayne, ele estava lá em espírito”. Mas faz questão de acrescentar: “Não nos reunimos (os três) só para fazer um disco. Temos escrito música desde quando nos encontramos, e Wayne nos tem encorajado, apoiado e guiado ao longo do caminho. John, Brian e eu temos uma longa história, e este registro não é, para nós, apenas mais um disco, mas um compromisso para dar continuidade à 'Escola Shorter'. (…) Não há nenhuma pretensão nem ideias grandiosas. São, simplesmente, três irmãos que só querem manter a família unida”.

Numa entrevista concedida quando comemorou 80 anos, Wayne Shorter assim se situou como músico: “I'm not a composer, I'm a decomposer”. Seu discípulo conceitual Danilo Pérez diz algo similar ao se referir à interpretação das peças pelo trio Children of the light como “comprovisation”. Ou seja, composição instantânea ou improvisação composicional, com “densas formas melódico-harmônicas”, ou, de repente, simplesmente “explorando a beleza de uma harmonia simples”.

De um dos releases de apresentação do novo CD vale pinçar o seguinte trecho sobre a “linguagem” do trio Pérez-Patitucci-Blade: “Desde que ficaram juntos, os três sabiam que falavam a mesma linguagem cinemática (…), que flutua e desliza em lampejos fugazes de um sentimento ou de um pensamento, mais do que com foco em qualquer significado específico. A linguagem é, ao mesmo tempo, cerebral e engenhosa, atingindo o ouvinte com o impacto de miragens”.

Dentre essas “miragens” musicais destacam-se: a impressionista Moonlight on Congo Square (5m); a percussiva e multicolorida Lumen (4m25), com Pérez explorando um inusitado piano elétrico; Light echo/Dolores (9m45), em parte inspirada em Dolores, de Wayne Shorter, mas com tratamento politonal surpreendente; as baladas Within everything (3m20), de Brian Blade, Luz del alma (2m40), e Ballad for a noble man (4m30), de John Patitucci, com o violoncelo de Sachi Patitucci (mulher do baixista) e fundo sonoro de cordas.

Na última faixa do disco, African wave (5m25), o trio balança na ginga do samba. 

(Samples do CD em https://www.mackavenue.com/)