Os irmãos Heath – o baixista Percy (1923-2005), o saxofonista tenor Jimmy (88 anos), o baterista Albert (80 anos em maio próximo) – inscreveram os seus nomes na história do jazz como mestres nos seus instrumentos.
Percy ficou célebre como ¼ do Modern Jazz Quartet, ao lado de John Lewis, Milt Jackson e Connie Kay. Jimmy teve uma brilhante carreira como líder de seus próprios conjuntos, como arranjador e compositor, depois de ter sido parceiro de Dizzy Gillespie, um dos founding fathers do bebop. Albert “Tootie” foi um dos sidemen preferidos de estrelas como Jay Jay Johnson, Benny Golson-Art Farmer (The Jazztet) e Dexter Gordon. Os Heath Brothers atuaram também como parceiros num conjunto assim batizado, entre 1975 e 2000, e gravaram uma dezena de álbuns, dos quais merecem especial menção Brotherly love (Antilles, 1981) e As we were saying (Concord, 1997).
O mais “jovem” dos Heath Brothers reaparece agora nas lojas virtuais com o CD Philadelphia beat (Sunnyside), o terceiro registro do trio que chefia, integrado por Ethan Iverson (piano) e Ben Street (baixo) - músicos também do primeiro time, mas de gerações bem mais recentes. Iverson ganhou merecida fama, por sua técnica e sua criatividade, no hiperativo trio The Bad Plus, ao lado de Dave King (bateria) e Reid Anderson (baixo). Street – discípulo de Miroslav Vitous e Dave Holland – tem um notável currículo, no qual se destacam associações com Kurt Rosenwikel (guitarra), Danilo Perez (piano), Lee Konitz (sax alto) e Mark Turner (sax tenor).
O crítico Peter Margasak assim concluiu a review deste novo álbum do trio de “Tootie” Heath, e que foi gravado pelo baterista no ano passado, na sua Philadelphia:
“Às vezes, esqueço-me da graça tranquila e do eloquente swing do jazz – razões que me levaram a amá-lo por tantos anos. Assim, é ótimo quando um registro como este aparece, e me faz lembrar dessa atração básica e indelével. Philadelphia beat é um desses raros novos álbuns nos quais tudo cai bem, e você tem de se limitar a dizer: 'É isso aí'”.
Vale acrescentar, apenas, que o CD tem 11 faixas, de duração média de 4 minutos. A mais longa é Memories of you (6m15), aquela antiga balada de Eubie Blake (1887-1983). A mais curta (3m) é uma irresistível e swinging interpretação de conhecida melodia de uma cantata de J.S. Bach (a Wachet auf, ruft uns die Stimme, BMW 140).
A escolha por Al Heath e seus comparsas destes dois títulos exemplifica muito bem a variedade temática do cardápio dePhiladelphia beat, que inclui cinco joias em matéria de jazz originals :
Bags' groove, de Milt Jackson (1923-99), peça antológica do repertório do MJQ; Reets and I, tema bop do trompetista Benny Harris, consagrado pelo pianista Bud Powell (1924-66); Concorde, do pianista-compositor John Lewis (1920-2001), e também do “livro” do MJQ; Con alma, de Dizzy Gillespie (1917-93) que recebe um tratamento rítmico-melódico muito original; Bye-ya, de Thelonious Monk (1917-82), o genial alquimista do jazz.
Diga-se, finalmente, que o quase octogenário Albert “Tootie” Heath exibe técnica e agilidade (física e mental) de fazer inveja a muitos bateristas em decolagem para o estrelato. O jogo espertíssimo entre os snare drums e os pratos é constante. Em Bye-ya, ele faz questão de ressaltar seus chops num solo de 40 segundos.
(As faixas Bye-ya e Reets and I podem ser ouvidas, na íntegra, em https://sunnysidezone.com/album/philadelphia-beat)
A PROPÓSITO
A propósito, o macróbio (ainda ativo) mais célebre do planeta jazz é o também baterista Roy Haynes, que comemorou o 90º aniversário, no último dia 13 de março, tocando no Blue Note de Nova York, à frente do seu quarteto. O grupo – por ele batizado the Fountain of Youth (Fonte da Juventude) – é integrado pelos “garotos” Jaleel Shaw (saxes alto e soprano), Martin Bejarano (piano) e David Wong (baixo).
Na festa-show realizada no Blue Note, o quarteto do legendário baterista - contemporâneo de Charlie Parker, Dizzy Gillespie e Miles Davis – recebeu, no segundo set, a visita do guitarrista Pat Metheny.